Oi

Essa não é a cantada de um canalha.
Também não é uma apresentação principesca.
Trata-se apenas de um OI.
O primeiro piscar de olho e sorriso de canto de boca que damos a uma garota, antes de convidá-la para um drink.
Dispensemos as formalidades, amorzinho. Nada de nomes ou estender as mãos.
Sinta-se a vontade, escolha uma cadeira e peça uma bebida. A primeira é por conta da casa. Chove lá fora e Sam está tocando “As Time Goes By” ao piano.
Todos precisam de uma dose violenta de qualquer coisa essa noite.
Aproveite a conversa e todos os pensamentos atirados no ar entre uma baforada e outra de fumaça cinzenta.
É disso que se trata a coisa toda.
Nessa espelunca à beira da estrada para lugar nenhum, não há petulantes formadores de opinião ou poetas iluminados que lhe prestarão a última palavra sagrada necessária à salvação.
Se você quiser conversar on line com Deus, siga o link:
http://www.titane.ca/igod/
Nessas madrugadas não há muitas certezas, embora um mundo progressivamente fora de si requeira que alguém tente fazer as coisas terem sentido de alguma forma.
Esse é o problema com a bebida.
Mas acredite, garota, aqui não há heróis.
Nenhum Rick Blaine lhe dizendo que vocês sempre terão Paris.
Aqui todos estão apenas tentando chegar os nervos de suas próprias idéias para que elas parem de ecoar em suas cabeças como tiros repetidos de espingarda.
É o El Dorado do fatalismo contra esse enorme tanto faz. E a única coisa que todos aqui têm em comum é um certo mal-estar latente da juventude.
É ele que inspira os textos, poemas, músicas e pôsteres de mulher pelada que você encontrará por aqui até as portas se fecharem de manhã.
Você sabe do que estou falando.
Você sente esse mal-estar ao acordar sozinha no meio de noites ainda mais solitárias, você o vê no fundo dos copos vazios de uísque paraguaio e no olho de cada cara que te abandonou enquanto você o amava.
Talvez tente esconder isso, negar isso. Se me permite um conselho: faça isso, babe.
Quando algo se quebra dentro de você, é preciso trocar de pele e seguir adiante.
Só que o processo é lancinantemente doloroso e talvez você seja daquelas que não querem sofrer ou temem arriscar suas migalhas para conseguir o pote de ouro.
Como eu posso lhe condenar?
É como querer ter dinheiro. Faz parte da moderna “vida feliz”.
Contudo, ao invés de negar isso, baby, talvez você queira aceitar esse estranhamento e reagir a ele com as únicas armas de fogo para as quais não se precisa de porte:
Cinismo e Indiferença.
Muitos já passaram por isso. Alguns superaram. Outros o negaram ou sucumbiram.
Mas não se importe em cair, amor, desde que caia atirando.

Published in: on Março 31, 2010 at 12:20 am  Comments (2)  

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2 comentáriosDeixe um comentário

  1. […] consiga escrever algo. É o fim, por enquanto, para mim, pelo menos. Depois de todo esse ano, a garota do OI no bar não é mais tão gostosa quanto no primeiro piscar de olho e sorriso de canto de boca. Ou não […]

  2. […] seis anos atrás, sobre sua tara por Born to Run e Mad Max. Não houve nada de arte. Só porre de uísque paraguaio e antigos ressentimentos. Espero que tenhamos superado o círculo de incompreensão e revanche […]


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