[RESENHA] TIME FADES AWAY – Neil Young

Em 1973, Neil Young havia acabado de lançar o mega-sucesso Harvest, seu disco mais bem acabado até então, estava no topo de uma sólida carreira e era considerado por muitos o melhor compositor de sua geração.

Ninguém poderia imaginar que ele mandaria tudo pro inferno e que, com a gravação de Time Fades Away, começaria sua controversa Trilogia da Sarjeta (Ditch Trilogy).

É claro, precisava haver um motivo para o cara largar aquele som folk límpido dos últimos discos e enveredasse por pouco comerciais canções sobre solidão e morte.

Pouco antes da turnê, Young é obrigado a demitir o músico Danny Whitten porque este simplesmente não conseguia mais tocar em decorrência do abuso com heroína. Em 11 de novembro de 1972, ele deu a seu ex-companheiro de Crazy Horse uma passagem aérea para casa e cinqüenta dólares. No dia seguinte, Whitten morreu de overdose e Neil foi devastado pela depressão. Para piorar, pouco depois, seu roadie, Bruce Berry, também morre pelo mesmo motivo.

Era demais.

Time Fades Away foi gravado ao vivo entre janeiro e abril de 1973 apenas com músicas inéditas e é marcado pelo som sujo da banda de apoio Stray Gators e entradas erradas de um Young entupido de drogas e álcool.

A crítica e os fãs detonaram o disco, que até hoje nunca foi lançado em formato digital.

Uma pena.

Como rejeitar um disco feito com tanta vontade, coragem e raiva?

O título já denunciava a urgência do disco – Time Fades Away significa algo como “O Tempo Está se Extinguindo” –, que continua na primeira canção homônima, uma sobre drogados enfraquecidos demais para trabalhar e pessoas esperando a hora certa. Note a referência a um drogado a menos no primeiro verso da última estrofe.

Anunciada como uma canção sobre o lar, Journey Thru the Past é o momento mais angustiante do álbum, lembrando em muitos aspectos Helpless. A jornada pelo passado envolve uma garota e uma fuga do inverno de um novo lar. São daqui os versos: “eu ficarei com você, se você ficar comigo, disse a violonista para o bêbado, e nós teremos bons momentos em uma viagem pelo passado”.

Yonder Stands the Sinner soa como uma provocação mordaz contra os grandes fingidores que costumam julgar sem olhar para si mesmo – ou talvez uma auto-reflexão de um cantor drogado que pretendeu julgar outro drogado. Há inclusive uma estrofe que lembra o mito do pecado original, um Adão assustado se escondendo por trás da árvore mais próxima, espiando por trás dos ramos e sendo acusado de pecador.

Em seguida, vem L.A., uma canção de amor e ódio pela cidade dos anjos, para quem tudo é apenas um show. Engraçado como é comum artistas admiram e se enojarem de Los Angeles. Por todos, vide Charles Bukowski.

Das canções do disco, a única que não foi gravada na turnê de 1973 é Love In Mind, decorrente de uma gravação ao vivo, dois anos antes. Todavia, nem por isso ela destoa do tom das demais. Aqui Neil fala sobre os efeitos nefastos de um amor perdido: “eu vi o amor transformar um homem em um tolo, ele tentou fazer um perdedor vencer, mas eu não tenho nada a perder, não posso voltar outra vez”. Também são dessa letra os ótimos versos: “Igrejas por muito tempo pregam que sexo é errado. Jesus, para onde foi a natureza?”.

As pistas de que Time Fades Away é um disco autobiográfico se escancaram na canção seguinte: Don’t Be Denied. Trata-se da estória (ou história?) de um garotinho canadense que se muda para Winnipeg com a mãe depois que o pai vai embora para nunca mais voltar. Cidade diferente, amadurecimento, brigas na nova escola, a primeira banda, a ida para Hollywood e o estrelato. No fim, a constatação melancólica de, apesar de tudo, ser apenas um mendigo em um disfarce, um milionário visto através dos olhos de um homem de negócios. Neil Young definitivamente não estava vivendo um momento feliz, por isso a música caiu tão bem nesse que talvez seja o ponto alto do disco.

Próximo do fim está talvez a canção mais esperançosa. The Bridge usa a metáfora da ponte para falar sobre o amor e de como este pode ser salvo, mesmo que leve certo tempo, mesmo que a ponte ameace cair às vezes.

Last Dance encerra o disco. E não poderia encerrar de melhor forma. A última dança é sobre o cotidiano massacrante e como há pessoas que encontram prazer em achar que têm controle sobre a própria vida, mesmo que só façam trabalhar por horas e horas.

No fim, palmas.

E um grito estridente: “last dance!”.

A turnê da qual foram gravadas as faixas (exceto Love in Mind) teve sessenta e cinco apresentações em inacreditáveis noventa dias, o que significou a maior turnê de Neil Young até então. Ele realmente sentia o tempo se extinguindo.

Tudo contribuiu para que este disco autobiográfico seja reconhecido como um dos melhores LPs ao vivo do rock, menos pela produção técnica e mais pelo desespero pulsante de transmitir uma mensagem, enquanto a areia da ampulheta não acabava.

Embora o próprio Neil Young considere o álbum o pior de sua carreira, proibindo até hoje seu lançamento em CD, ele reconhece que é um fiel documentário do que estava se passando em seu íntimo naquele período. Hoje os fãs discordam veementemente do ídolo, havendo inclusive um movimento na internet de abaixo-assinado para que o material seja relançado oficialmente em CD.

Neil Young ainda lançaria duas outras obras-primas seguidas da melancolia, On The Beach e Tonight’s The Night, mas que passariam longe desta revolta de 73. Aqueles discos refletiriam um cantor acabado e vencido, bêbado em um bar no fim de noite. Aqui, por outro lado, há um rock star se debatendo, gritando e fazendo o maior barulho possível com o objetivo de transmitir uma mensagem urgente, ainda que estivesse bêbado e vagamente consciente.

Published in: on Maio 12, 2010 at 7:31 pm  Comments (1)  
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One CommentDeixe um comentário

  1. Excelente resenha. Sou um grande fã de Neil Young. Considero este disco um dos melhores de sua fértil carreira. Outros igualmente geniais: Harvest, Tonight´s The Night, Rust Never Sleeps, Everybody Knows…, Zuma, Comes a Time, Ragged Glory e, On The Beach. Da fase menos clássica, curto muito Sleeps With Angels e Broken Arrow. Neil Young é um gênio, juntamente com Bob Dylan, os maiores músicos (solo) vivos do mundo.
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