Daquela vez o troço acabou comigo.

Nunca mais me aproximaria daquele detestável instrumento de sons e cordas de aço.
Todas as execráveis, patéticas e comoventes coisas que disse, usando-o; e as coisas que ele me fez dizer, usando-me, sibilavam como o último sopro imbecil de uma ventania que me consome de repente. A resposta não vem no vento, meu amigo.
Devia me esquecer dele.
Cortara as unhas e os calos nas falanges começaram a desaparecer.
Era o fim. Repetia para mim mesmo: “nunca tive muito talento mesmo”.
Cansara daquele mudo psicólogo para as angústias sem nome.
Havia acabado. Ele ouvira coisas demais e deixou de ser confortante conversar com ele.
Decidi-me nunca mais tocar “Keep me in Your Heart” ou “Romance in Durango” em qualquer instrumento estúpido que fosse.
Atiraria em você, se me entregasse um violão.
Esconjurei a aura de santidade e rebeldia daquele som folk – tais cordas de aço dilaceraram repetidas vezes meus dedos até que eu abandonasse a encruzilhada das rodovias 61 e 49. Nunca mais venderia minha alma ao diabo para tocar uma música que fosse.
Isso aconteceu há seis meses.

ƒ  ƒ

Nesse tempo fiz de tudo pra me distrair nos massacrantes momentos de tédio.
“Se precisar de um nó na gravata, pode chamar, chefe!”
No entanto, hoje – 04 de novembro de 2009, dez minutos atrás, eu ouvi o sussurro de uma voz interior. Ela insinuava que já passara tempo demais apartado de um amigo.
“Não precisamos mudar de amigo se compreendermos que amigos mudam”, diz um texto idiota atribuído falsamente a Bill Shakespeare que circula na internet.
Então, sem mais nem que, levantei os olhos do livro de Processo Penal, abri a porta da sala e me surpreendi ao perceber que ele ainda estava no mesmo canto de parede.
Não fora embora, não me abandonou.
Um pouco empoeirado, decerto. Muito desafinado.
Quando o segurei no colo, senti que – tal como a música que produzia – ele não tinha peso. Primeiro um SI menor, depois um RÉ maior, um RÉ com sétima.
Parecia que eu usava luvas de borracha, meus dedos doíam, o som era horrendo, mas tudo estava ali… A espontaneidade, o resquício de uma intimidade nunca perdida.
Amigos mudam, mas porque você continua a reconhecê-los, eles continuam amigos.
A corda SI está enferrujada e a primeira MI desse encordoamento nunca me agradou.
Mas aquele primeiro FÁ maior me lembrou a introdução de Thunder Road.
Nunca aprendi aquela música.
Era hora.

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  1. Tô gostando demais disso aqui caras… ótimo poder ler essas linhas.


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