Ninguém vai acreditar

Ninguém vai acreditar, eu sei.
O que diria um judeu ao afirmar que seguiu Moisés no deserto, mas não chegou à Terra Prometida?
Eu estive em Fernando de Noronha. Não há metáforas para isso.
Há, sim, toda uma soma de decepções e indiferença a respeito.
Sabe o que é chegar ao céu e perceber que ele é exatamente igual ao sermão daquele conhecido padre na missa ao domingo? Foi o mesmo.
Queria poder dizer que a ilha é extraordinariamente mais bonita do que aquilo que aparece brilhante na novela das oito, mas não.
Ela é exatamente igual ao melhor sonho de todo brasileiro…
E isso é meio decepcionante.
Torna-se lugar comum.
Para você, meu amigo, é como abordar uma garota linda dizendo o quanto ela é linda. Grande merda. Ela certamente se decepcionaria com sua falta de imaginação.
Tal como eu me decepcionei com Fernando de Noronha justamente ao perceber que a ilha era igualzinha ao merchandising da novela das oito – com toda a sua preservação ambiental e programas sociais voltados a casais.
(Uma dica: se você estiver acompanhado com alguém que nunca lhe faça ter vontade de ir embora depois do sexo, Fernando de Noronha vai parecer um Éden primitivo de amor livre e praias desertas).
Esse estranhamento ao qual eu ainda (e felizmente) não me acostumei talvez remeta àquele mal-estar latente da juventude ao qual esse espaço escroto da net chamado blog levanta como bandeira – uma bandeira em frangalhos e suja de poeira, mas ainda assim uma bandeira.
Em Noronha, a sensação de que fui um passageiro de um trem que não passa de ilusão (thanks Humberto!) é tão palpável que poderia beber uma garrafa dela.
Uma ilusão igual a quando um amigo me disse que gamou na garota que lhe fizera certos favores sexuais.
Em resposta, eu disse: “Cara, todas as garotas fazem boquete”.
Sou um destruidor de mitos.

Ps. Golfinho é uma espécie de tubarão gay.

*Ao som de As Águas de Noronha – Zezo

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Published in: on Agosto 29, 2010 at 12:32 pm  Deixe um Comentário  
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Não há nada como o cheiro de boceta pela manhã

Não se enganem.
O que era moderno já era.
Hoje, todos nós vivemos o chamado pós-modernismo.
Para o bem e para o mal.
Sem volta.
Não que eu me importe realmente – é a vantagem de não se acreditar mesmo em muito.
E o mais importante dilema do pós-modernismo não está na dissolução dos valores ou das instituições públicas como expressão de segurança nacional.
Se isso mudou, era porque elas não eram boas o bastante.
O dilema do pós-modernismo está no desejo de se namorar.
É isso mesmo.
Nesses dias, namorar é como vender a alma ao diabo.
Nada me sexismo, machismo ou qualquer outro rótulo terminado em “ismo”.
Em tempos de relações instáveis e sempre novas celebridades semanais, não se apegar e não deixar que se apeguem é um eficaz meio de preservação contra a tragédia.
As coisas chegam ao fim cada vez mais rápido e é melhor deixar isso bem claro para ambas as partes.
A vida não é o filme italiano do casal que vai morar em um farol acertado pelas ondas.
Está mais para Barfly.
Entendam bem, não que as garotas não sejam maravilhosas.
Elas o são.
Todas o são.
Em tempos outros, eu amputaria um braço – o esquerdo – para dormir com uma delas.
Mas os tempos são outros.
It’s my dirty life and times.
Vai ver são até garotas certas em uma época errada.
Amor em tempos de cólera.
Não se é insensível apenas por querer o mínimo de paixão.
E nenhuma chamada “não-atendida” no dia seguinte e o cheiro de boceta pela manhã.

*Ao som de Velha Roupa Colorida – Belchior

Bluebird

Pássaro Azul” – Charles Bukowski
(Bluebird)

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him

Eu falo “fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver”
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see you

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out

mas eu taco uísque nele e respiro fumaça de cigarro
e as putas e os barmen e as caixas do mercado
nunca sabem que ele está aqui dentro
but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he’s in there

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him

Eu falo “fique aí, você quer me pôr em apuros?”
“você quer estragar meus trabalhos?”
“você quer estragar as vendas dos meus livros na Europa?”
I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out

mas eu sou mais esperto,
só deixo ele sair de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
but I’m too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody’s asleep

Eu falo “sei que você está aí, então não fique triste”
daí o ponho de volta, mas ele ainda canta um pouco aqui dentro,
Eu não o deixei morrer totalmente.
I say, I know that you’re there, so don’t be sad.
then I put him back, but he’s singing a little in there
I haven’t quite let him die.

e a gente dorme junto desse jeito
com nosso pacto secreto
e é bacana o suficiente para fazer um homem chorar
and we sleep together like that
with our secret pact
and it’s nice enough to make a man weep

mas eu não choro, você chora?
but I don’t weep, do you?

*Créditos: Blog do Nicholas

*Ao som de Hurt – Johnny Cash

Published in: on Agosto 15, 2010 at 10:44 am  Comments (5)  
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Fim de micareta

Ela saía do banheiro químico.
Abadá amarelo, negros cabelos cacheados e cheiro de urina.
Eu entrava no banheiro.
Camisa puída, cabelos despenteados e cheiro de conhaque São João da Barra.
“Muito obrigada! Agora é você!”.
“Tudo bem. Eu podia segurar”.
“Por que você me cedeu a vez!?”.
“Ora, baby, as damas primeiro”.
“Por que você me chamou de baby?!”.
“Não sei. Achei você bem charmosinha…”.
Ela sorriu e seguiu olhando para trás.
Crista negra de cabelos cacheados desvanecendo no ar.
Eu voltei para o conhaque.
Vida: seqüência de apostas até o Royal Straight Flush.

*Ao som de Mauro, Eu Mesmo e Eu – Velhas Virgens

Published in: on Agosto 8, 2010 at 8:15 pm  Deixe um Comentário  
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[TRADUÇÃO] If You See Her, Say Hello – Bob Dylan

Se você a vir, diga-lhe “olá”
(Blood on The Tapes version) (1)

Se você a vir, diga-lhe “olá”, ela deve estar em Tânger
Ela partiu na última primavera e está vivendo lá, eu ouvi
Diga que estou bem, apesar das coisas irem um pouco devagar
Ela pode pensar que eu a esqueci, não diga que isso não é verdade.

Nós tivemos uma discussão, como amantes sempre têm
E pensar em como ela partiu aquela noite ainda me dá calafrios
E embora nossa separação tenha ferido meu coração
Ela ainda vive dentro de mim, nós nunca nos separamos.

Se você estiver fazendo amor com ela, beije-a por um garoto
Que sempre a respeitou para fazer o que ela fez.
Oh, eu sei que isso está no caminho, estava escrito nas cartas
Mas o amargo gosto ainda perdura, isso tudo dói tanto

Eu vejo muitas pessoas enquanto volteio por aí
E escuto seu nome aqui e ali enquanto vou de cidade em cidade
E eu não costumava fazer isso, eu apenas aprendi a esquecer
Ou estou mais sensível ou então estou ficando leve.

Pôr-do-sol, lua cheia, eu repasso o passado
Eu conheço cada cena em meu coração, elas todas vieram tão rápido
Se ela retornar por este caminho, eu não sou difícil de achar
Diga que ela pode me procurar se ela tiver tempo.

(1) A versão da música que está no vídeo acíma é a do album Blood on the Tracks.

Ballad of Fallen Angels

Pra falar de Amor

“Estou cansado
De fazer coisas inúteis
E dizer palavras fúteis
Procurando me entreter

Estou cansado
De ficar na esperança
De que alguma bonança
Vai enfim acontecer

Eu quero apenas
Não ter mais dilemas
E escrever poemas
Pra falar de amor…”

– Henry Florean

Postado ao som de Broken Boy Soldier – The Raconteurs

Published in: on Agosto 1, 2010 at 11:18 pm  Deixe um Comentário  
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Eu odeio Saulo

Não hoje.
Pro resto da vida.
Não é um ódio gratuito, acredite em mim!
Eu vou lhe explicar…
Hoje é uma amável e suave noite no SB.
Está passando o Fantástico na TV.
(Não que eu assista, mas poderia assistir. Quem não poderia? Pergunta retórica…)
As vizinhas voltaram das missas. Acho.
Os vizinhos, da cachaça do campeonato brasileiro.
O que porra estou fazendo em casa?!
É exatamente dez e cinqüenta da noite.
Do meu lado esquerdo há uma Heineken esperando para ser violada.
No direito, azeitonas vencidas há menos de dois meses – espero que não façam mal.
Lá fora parece haver um carnaval-fora-de-época acontecendo.
Guerra de sons travada nos becos escuros.
E eu esperando os dedos se moverem.
Teclas estáticas.
É meia-noite.
Acho que devo encerrar os trabalhos.
Decidir a guerra entre minhas memórias bêbadas e a página em branco.
Receio que perderei.
Mas devo perder com honra.
Por isso odeio Saulo.
Seria mais fácil tomar a Heineken e ir dormir.
As azeitonas esperariam… mais.
Mas porque Saulo inventou isso tudo?
Esse espaço escroto da net chamado blog.
Que levanta como bandeira o MAL-ESTAR LATENTE DA JUVENTUDE.
Uma bandeira em frangalhos e suja de poeira, mas ainda assim uma bandeira.
Ele levantou porque todos nós estávamos derrotados demais para fazê-lo.
Caras esperando encontrar a palavra sagrada da salvação no fundo do conhaque.
Odeio Saulo porque ele me fez escrever.
Era mais fácil, eu e a Heineken.
Depois de tentar vomitar o não-digerido como hoje, nada é tão simples depois.
Não mais é tão fácil se sentir um fracassado outra vez.
Eu odeio Saulo.

Published in: on Agosto 1, 2010 at 10:11 am  Comments (1)  
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