DIRTY LIFE AND TIMES

Don’t let us get sick
Don’t let us get old
Don’t let us get stupid, all right?
Just make us be brave
And make us play nice
And let us be together tonight


– Warren Zevon

– E então, o que quer que eu faça?

– Fique aqui mesmo, um pouco quieta.

– Está me pagando cento e cinqüenta reais para que eu fique na cama abraçada com você no escuro? Tudo bem, a grana é sua. Só acho que há muitas mulheres honestas que não se importariam de ficar aqui no meu lugar.

– Houve algumas. Estão todas mortas.

– Sinto muito. Viúvo?

– Quando falo “mortas”, quero dizer “perdidas para sempre”.

– Ah, e o que tem isso a ver? Tipo, todos já tivemos o coração arrebentado uma ou duas vezes. Faz parte da vida. Temos que aceitar. Sabe, eu tenho um filho. Ele tem três anos. Quando crescer mais um pouco terei “aquela” conversa com ele. Você sabe, advertir sobre drogas e garotas. Dizer que não há caras legais que tenham vivido muito usando drogas – só o Keith Richards, mas ele não é humano – e que, um dia, uma vagabunda vai foder pra valer o coração dele. E quando isso acontecer, não vai ser o fim do mundo, embora possa parecer por um momento. Simplesmente não era a garota certa. O amor não é uma coisa doentia.

– Nunca, em tempo algum, teve um tranqüilo curso o verdadeiro amor.

– Quem disse isso?

– Shakespeare.

– Ah… Não é verdade. Se é amor, ele precisa fazer bem; se faz mal, não é amor. Quando as coisas não estão certas, por algum motivo elas estão erradas. Sofrer por amor é uma contradição em termos.

– Quem disse isso?

– Eu.

– Ah.

– Casadas?

– Como?

– As garotas “perdidas para sempre”.

– Não sei. Foi há muitos anos. Não interessa, na verdade.

– Ora, então porque você vive na defensiva?

– Não vivo na defensiva. Só não estou a fim de trepar agora.

– Então posso ir embora, não é?

– Eu não gostaria.

– Por quê?

– Talvez sinta falta de alguém com quem conversar. De certa forma, é bom estar contigo porque amanhã você não poderá usar o que eu disse contra mim. Vou te pagar e você vai embora de táxi. Acabou. Nunca mais nos veremos. Assim é seguro.

– Sabe o que eu acho? Acho que você vive com medo porque, no passado, alguma garota babaca espatifou suas boas intenções sob o salto do scarpin. Agora, você evita se aproximar das pessoas com medo de que outros façam o mesmo, como se foder uns aos outros fosse da natureza humana. Mas, ao mesmo tempo, você sofre porque todos precisam ser amados por alguém; todos, até o Collor, são amados por alguém.

– Tem certeza que você faz programa e não Psicologia?

– É a psicologia da vida. Ela ensina a todos, quer você queira, quer não. E quer saber? Me passa meu sutiã aí do seu lado. Vou dar o fora. Deu pena de você, eu brocharia se transássemos agora. Nem precisa me pagar. Os conselhos foram de graça.

– Espera. Você está certa. A indiferença e o cinismo são armas. Vivo constantemente com o dedo no gatilho porque julguei que já fora submetido ao pelotão de fuzilamento vezes demais e decidi nunca mais me engajar em qualquer causa – dentre elas, o amor. Também tentei me convencer de que a humanidade já revelara seu rosto sem maquiagem e eu não gostara dele.

– Idiota…

– Aqui está seu sutiã. Vista. A chave está na porta. Também há dinheiro na carteira em cima do criado mudo.

– Obrigado, mas não quero sua grana.

– Ela está lá, você pode pegá-la e ir embora; ou pode não pegar e deixar que eu lhe pague um jantar. É tarde da noite, estou com fome e há um ótimo restaurante chinês aqui perto. Podemos ir andando.

Para se ler ouvindo o tema de two and a half men e parar de achar aquilo engraçado.

Published in: on Dezembro 17, 2010 at 12:18 am  Comments (5)  

The URI to TrackBack this entry is: https://naestradaaopordosol.wordpress.com/2010/12/17/dirty-life-and-times/trackback/

RSS feed for comments on this post.

5 comentáriosDeixe um comentário

  1. massa pra caralho.

  2. “Todo grande amor só é bem grande se for triste”. Expresse-se!

  3. A psicologia da vida…
    Gostei!

  4. “Para se ler ouvindo o tema de two and a half men e parar de achar aquilo engraçado.”

    Gostei.

  5. Entre a indiferença e o cinismo, fico com este.

    Culpa de ninguém, só da vida. Mas barra não é qualquer um que segura, certo?


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: