AINDA LONGE DAS CAPITAIS

Se for verdadeira a máxima de que “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa” [1], não é menos verdade que algumas músicas, compostas há vários anos, por pessoas completamente diferentes, podem falar de sua vida melhor do que aquelas que supostamente cantam o tempo presente.

Tal se dá com as composições ácidas do citado rapaz latino-americano, bem como com as plurissignificativas baladas folk de Bob Dylan e Zé Ramalho. Mas também assim ocorre com uma dúzia de canções compostas na agora distante década de oitenta, em uma cidadezinha longe demais das capitais.

“Longe Demais das Capitais” é o primeiro disco dos Engenheiros do Hawaii, anterior à célebre formação Gessinger, Licks e Maltz. No baixo ecoam as notas swingadas de Marcelo Pitz e na guitarra, o acompanhamento semi-amador de Humberto Gessinger, além da raivosa bateria de Carlos Maltz. A sonoridade do disco é rústica e descompromissada, ou seja, o puro rock’n roll nacional.

Daquele disco pouco importa analisar a musicalidade das canções – ninguém liga pra isso mesmo quando elas viram clássicos. O que interessa daquele vinil inicial dos Engenheiros é a presença crua e mal-disfarçada de todos os elementos do que depois viria a ser chamada engenharia hawaiiana.

Naquelas canções já estão presentes todos os traços de desilusão e cinismo que permeariam a maioria das composições de Humberto Gessinger nos vinte e poucos anos seguintes. Como bem consta do release do disco, nele foram traçadas as linhas mestras da ironia latente que guiaria (e sustentaria) a engenharia hawaiiana dali em diante. Ironia daqueles que “não conhecem bons tempos e apenas observam o fim da festa com um sorriso triste nos lábios” [2].

Esse sentimento de inevitabilidade e descontentamento já constava desde a primeira faixa, nos clássicos versos: “eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”. Uma música sobre acordar de manhã e observar Fidel e Pinochet tirarem um sarro de você, sabendo ser impossível mudar qualquer coisa – seja porque toda forma de poder é uma forma de morrer por nada ou porque a força deixa a história mal contada. O que mais resta além de ir adiante e esquecer que a coisa toda está errada? Os Engenheiros não são heróis, são casuísticos.

Eles observam com desdém os agitos do movimento estudantil e, com o olhar preso na tela da televisão, esperam o suicídio de algum boçal.

Essa mistura de ceticismo e inevitável tédio encontra todas as notas em “Fé Nenhuma”, onde Gessinger atira contra o ouvinte, no meio de uma bateria raivosa, os versos: “não levo fé nenhuma em nada! / Mas ninguém tem o direito de me achar reacionário / não acredito no teu jeito revolucionário / Você quer me pôr no agito / no movimento estudantil / mas eu não acredito / no futuro do Brasil”. Ao final, sentencia: “Sei de cor seus comentários / sobre o mal da alienação / mas eu não vivo de salário / eu não vivo de ilusão”.

Indiferentes ao crepúsculo de um modelo de comportamento no qual não se enquadram, os Engenheiros não lamentam nem vibram com o fim da festa. Eles estão no olho do furacão e se limitam a narrar o modo como aquele mundo caminha pra o fim, tal como uma manchete do Jornal Nacional, enquanto procuram outro cigarro no bolso do casaco. Em “Beijos pra Torcida” as bombas e o fim da Guerra Fria são displicentemente comparadas a uma partida de futebol, para depois provocar: “falam tanto sobre guerra e paz / mas tanto faz falar ou não / todas as bombas e os generais / são restos mortais da civilização”.

O enfado de se viver em uma cidade muito grande em tamanho, mas pequena em pensamento, tão distante do horizonte do país, reflete-se em passagens da faixa que dá nome ao disco (“Suave é a noite / é a noite que eu sai / pra conhecer a cidade / e me perder por aí”) e em “Crônica”. Nesta se tem uma idéia da angústia lancinante de se viver em um lugar permeado por violência e distrações alucinógenas, trancado em um apartamento, sem carro nenhum rasgar as ruas ou qualquer filme passar na TV, esperando mais um século terminar até o inevitável momento em que a rotina toma conta de você. Depois de ouvir essas duas canções é de se perguntar: será que o terceiro mundo é mesmo muito difícil de entender?

Note-se que o realismo cortante com que os Engenheiros vêem a sociedade reflete-se no espelho desencantado das supostas canções de amor do disco. Em verdade, para eles, “os restos mortais da civilização” parecem tão desimportantes quanto perder o sono ao som de Yoko Ono. Melhor seria falar sobre uma garota que precisa de alguém para lhe oferecer segurança – e segurança é tudo que os Engenheiros não podem oferecer nem a si mesmos.

“Segurança” é a canção-hino dos desajustados, daqueles que sonharam com uma impossível garota, que só tava a fim de óculos Ray Ban, calças Yves Saint-Laurent e todo tipo de supostas seguranças. A música é o roteiro de um filme high-school materialista, uma demonstração auto-irônica de que não levar fé nenhuma em nada não serve para nos conferir confiança nos relacionamentos – ou, quem sabe, de que não se deva levar fé nenhuma também no amor. Certamente, fica fácil nisso acreditar quando se percebe que os sonhos podem se estragar no banco traseiro de um Alfa Romeo.

Talvez o próximo capítulo dessa inquietação venha em “Nossas Vidas”, que começa anunciando: “a gente faz de tudo / mas nada faz sentido / nem as luzes da cidade / nem o escuro de um abrigo”. Em seguida Gessinger pergunta: “Não posso entender o que fizeram com nossas vidas, não posso entender porque viramos suicidas?”. Entre os vícios e o início de um dia-a-dia cada vez mais absurdo, o “niilista” da canção se entrega: “eu já pensei em mandar tudo pro inferno, mas não pensei que fosse tão difícil ficar sozinho numa noite de inverno”.

Às vezes é difícil conviver com a certeza de que todo mundo é uma ilha. Há noites em que seria bom estar com alguém, mesmo que fosse só uma psicodélica transa nazi-fascista (ou gótica…).

Em “Todo Mundo é uma Ilha”, tem-se justamente a impressão de que a desilusão é insustentável e fatal, uma armadilha que derruba seu mundo. A letra começa escancarando um irresistível ar blasé: “não me leve a sério, não me leve a mal / me leve para casa / eu sou um bom rapaz, eu só bebi demais / preciso ir pra casa / você me procurou, eu procurei dizer / que não valia a pena / você não escutou, você me acusou / de estar fazendo cena”.

Em seguida, pensa-se em uma despedida incrivelmente amarga e decisiva, com o rapaz desajustado de “Segurança” dizendo para uma moça-de-uma-noite-só que ela não sabia o que ele sentia ou quem ele era; chegando ambos à conclusão de que entraram em um labirinto, em uma armadilha (“Eu dancei, você dançou”…), no qual eles tentaram esquecer que todo mundo é uma maldita e solitária ilha. Ao final, a realista e cruel conclusão: “agora é tarde, já não tem mais jeito / já não tem saída / no fim das contas / a gente faz de conta / que isso faz parte da vida / que o mundo não tá caindo”.

No fim da noite, deitado de novo no tédio de seu quarto, com a TV ligada e sem som, o garoto desiludido que escreveu aquelas canções se vê obrigado a assumir que vive em um mundo próprio, ainda longe demais das capitais; a aceitar que nada pode fazer para evitar a última música do baile (aquela depois do bis), que amores às vezes se estragam por um Puma-GT com vidro fumê e, principalmente, que, não importa o que aconteça, todo mundo continua sendo só uma ilha.

Essas mesmas conclusões, que poderiam matar pessoas mais otimistas, conduziram três jovens universitários a um pré-histórico estúdio em 1986. Lá eles deram à luz a doze canções que elevaram o nível do rock produzido no Brasil. Simplesmente fazer canções açucaradas sobre amores e vociferar contra o governo não era mais o bastante – embora continuasse a fazer bastante sucesso. O BrRock tinha passado, consciente ou inconscientemente, para outro nível de discussão. Tudo graças a um trio de caras entediados que suspeitavam haver algo muito errado com a ordem e progresso lá fora.

João Pessoa, 25 de maio de 2008.

23h04min

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[1] Belchior, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, Alucinação, 1976.

[2] Texto capturado no sítio http://www.engenheirosdohawaii.com.br em 25 de maio de 2008.

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  1. “…dizendo para uma moça-de-uma-noite-só que ela não sabia o que ele sentia ou quem ele era; chegando ambos à conclusão de que entraram em um labirinto, em uma armadilha…”


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