Comigo

Eu quero me redimir por ter acreditado tanto que pudéssemos ser de novo a amizade que fomos, e principalmente por eu ter criado a mentira de fingir que eu senti que ela existisse de fato. Eu sempre soube que não existia mais. Eu sempre senti a distancia em tudo que pareceu encontro. Eu cansei dessas distancias, e eu estou procurando a maneira mais educada, mais doce de rejeitar suas gentilezas. E faço questão de eu mesma rejeitá-las, por me envergonhar de ter me confessado para tão nobre amigo como boba e solitária. Envergonho-me tanto que se eu pudesse me olhar no espelho do orgulho agora, negaria que o fiz. A verdade é que para sorte do mundo e meu azar, não tenho nem mesmo orgulho, o que direi dos seus espelhos.

Pois bem, no dia em que precisares desse velho ombro, meu endereço é fácil, e me conserve, por qualquer formalidade, em sua agenda. No dia em que me falares de coração, prometo ser a brandura da nossa amizade de antigamente. Mas qualquer gentileza a que se sinta obrigado, rejeitarei de hoje em diante. Já fomos amigos. Não somos mais. Mas não quero confessar-lhe isso no olho, por um motivo muito simples, no dia em que me falares de coração quero me comportar como se ainda amigos fôssemos, e nunca tivéssemos deixado de ser.

A verdade é que a solidão que me acomete por dentro não é uma realidade dura para mim. Eu a digo para que sintas no calor de um sentimento amigo, que em muito sinto a sua falta. E apenas isso. Cansei de estar contigo e estar ainda mais solitária, procurando em teus olhos sempre algo que eles nunca me disseram mais.

Depois de tudo, da conversa franca depois de tantas datas de silêncio, da confiança intacta de que agora já duvido, dos encontros de freqüência deficiente tão distantes e tão frios, essa franca verdade, nobre amigo, temo que tenha mudado. Da época de que me fez falta, a pouco, tua companhia doce e calorosa, tua voz influenciadora e tantas vezes decisiva, teus telefonemas de desnecessárias e deliciosas delongas, da época em que eu te amei, de mim não resta quase nada, tanto quanto quase nada resta de ti. Quando eu era quem eu era nos tempos de nós dois – três, quatro… – eu não precisava, não plantava, não amava essa solidão que sou agora, porque você se foi e virou alguém. Alguém que eu não sei. Também virei alguém. Só que quem virei, eu muito bem sei. Posso dizer tanto disso!

Desde você, sou mais espiritualizada. Bem menos inocente, um tanto desconfiada, digo assim. Não aprendi a beber, nunca aturei demagogias midiáticas, descobri que sou a política que tanto repelia, escrevi algumas poesias. Desesperadamente, me apaixonei por música, prometi que escutaria todas as do mundo mais lindas. Acho até que já encontrei tantas delas. Ouvi sabedorias sobre a separação de joio e trigo, devo essas sabedorias bem mais aos livros que as pessoas. Descobri que a beleza mais expressiva não está nas polêmicas do mercado musical americano, está nos mares do Brasil, e em tantas coisas que eu ainda não sei. Hoje eu posso dizer-te certamente: os homens são todos diferentes, e às vezes eles precisam de nós para serem. Já ouvi da boca de mulheres, que tem futilidade na essência, juras convincentes do inverso. Mas no sexto sentido do meu coração, eu já tive de um homem a amizade em sua genética perfeita; o olhar assustado de um bicho, em algum momento; o romantismo de um Romeu, que se não foi fidedignamente, assim foi para os meus olhos; a lágrima sincera de um ser humano, na sublimidade de assim o ser realmente; e o desejo de uma vida inteira, recíproco, na medida da verdade que foi.

Uma alegria verdadeira que hoje tenho, e no tempo de nós dois eu não tinha, é o fato de eu não achar que em algum momento dessa estrada eu segui o caminho errado da bifurcação. E nos momentos sem bússola, eu voltei estradas inteiras, sem me importar se era noite, e dormi o restante da madrugada no ponto zero, para só pela manhã eu tentar num caminho novo, mais lúcida e renovada. Apesar de que foi porque tanto voltei, e tantas vezes esperei nas bifurcações dos caminhos da vida, que perdi você(s), caro(s) amigo(s), e hoje me sinto sem caminheiros do meu lado. Aproveitei que estamos temporariamente instalados para enviar-lhes primeiro, declarações saudosas, e desabafos de solidão. E agora isto, por ter sentido muito toda essa geleira persistir. A vizinhança dos meus amores é mesmo muito deserta, mas não posso ir embora, e se é a solidão a condição de eu tê-los sob meu domínio, prefiro isso que civilização. Sinto falta desses amigos, mas eu, sem as minhas coleções de mim, definharia e os amaldiçoaria com o tempo. O fato de sermos diferentes não me afasta do sentimento que tenho por você(s), o que tanto me entristece é não ouvir, quase nunca, o mesmo.

Uma lição muito bonita, e diferente das lições que me deste no tempo de nós dois, me ensinastes na indiferença gentil de não se importar: por carência, não chamarei mais de amigo quem não me for. Das companhias agitadas que faziam o sangue correr mais rápido, vou sentir saudades da maneira mais lúcida, menos melosa. Mas se foi na calma e na introspecção que encontrei a vida, e se não pode me amar fora dos vazios que não me encaixo muito bem, eu sinto.

Serei sempre firme em bater martelos, isso está no quase, do quase tudo que mudou em mim. Tive tanto medo da consciência, quando percebi que num pesadelo eu podia deixar de ser, para ser mais igual, e ser mais vazia, e ser as realidades muito complexas de vidas alheias. Seria desastroso fazer tudo isso para que me aceitassem, uma vez que sempre os aceitei assim como fossem. Fossem até de maneira frívola e fútil, sempre se souberam amados, de verdade.

Mas me fez ver que essa solidão sou eu. E eu sou tão confortável. Suficiente não. Porque eu acho que eu nasci para viver assim, uma coisa bem grande. E só eu, sozinha, sou tão minúscula e incompleta. Sou tão previsível para mim. Tão domável e desinteressante.

A alegria de agora é apenas estar tranqüila, esperando. Não de boca aberta, paralisada, mas imersa nas verdades que venho construindo, moldando em sensibilidade um coração para ser de um ser humano que valha a pena. Para quem valha a lealdade e a sinceridade. Para quem eu me mostre em transparência, e que também me seja, sem que eu peça. Não vou pedir mais nada. Não o desenharei, nem rotularei sua chegada, sua idade, sua religião, nada! Vou tentar saber alguém que não seja covarde: e que saiba manter sua verdade – igual ou não – diante da minha. Porque a minha grande tristeza é ver que muitos não me aceitaram por medo de que eu também não fizesse.

Não sei quem, nem quando. Mas vou amá-lo desde já. Respeitar seus defeitos certos, suas ignorâncias, vícios e descrenças. E vou sê-lo em cada imperfeição que tanto tenho. E em cada beleza de ser gente, que também sou, vou sê-lo. Pois não há um só alguém que viva sem ninguém.

Quanto a solidão eu a respirarei e escreverei em detalhes suas faces.

Enquanto isso vou sentir saudade de você, que foi embora, sem saber exatamente o que representava – e era isso, enfim – em meu coração. E serei solidão de novo, mesmo estando cercada de gentes, todas as vezes que eu lembrar de nós dois, nós três… nós todos. Por mais que sejamos nós e alguém, não seremos mais nós, aquele conosco que era um só, me entende?

É. Imaginei que não.

Ao som de Solidão de Amigos – Jesse

***

Obs.¹: Texto escrito por Juliana Mary de Carvalho Rolim a pedido dos autores desse blog, sendo o segundo de uma série de quatro textos escritos por amigas convidadas.

Fica aqui um super agradecimento da equipe do Na Estrada Ao Pôr-Do-Sol a Juliana Mary, pela atenção e carinho e por aceitar dar sua belíssima contribuição aqui no blog. Aqui segue o link para visitarem o seu espaço, que por sinal eu recomendo muito.

Published in: on Maio 1, 2011 at 2:48 am  Comments (2)  

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2 comentáriosDeixe um comentário

  1. “Mas todo esse tempo que eu estava sozinho
    O passado estava logo atrás de mim
    Eu via um monte de mulheres lá
    Mas ela nunca saiu da minha mente
    E eu apenas cresci
    Emaranhado na tristeza”

    – Dylan, Tangled Up in Blue.

  2. Eu é que agradeço o convite e me coloco a disposição, fico honrada de vir aqui e “me ver junto com vocês”, e na figura de João Paulo admiro a iniciativa e dedicação para a literatura! É lindo. lindo. Grande abraço


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