Eu nunca vi uma janela tão baixa.

Tão próxima ao chão que você simplesmente consegue abrir fora o vidro, colocar os pés e observar a paisagem da rua movimentada lá embaixo.

Deve ser umas nove horas.

A prova terminou as sete, houve o táxi e o trânsito.

E teve o tempo para comprar as cervejas.

Deve mesmo ser umas nove horas.

É uma noite mais quente e seca do que julgo merecer, mas não reclamo.

Hotel nas cinzas do centro antigo e bonitas garotas esperando o ônibus na integração da Avenida Anhanguera.

Lá embaixo, Goiânia parece ser uma boa cidade.

Diferente do imaginário popular, não deve ser uma fábrica de duplas sertanejas.

Dois dias aqui e eu não vi nenhuma – embora vez ou outra avistasse alguém andando com um chapéu de rodeio ao sol.

Agora eu me lembro do quanto estou cansado.

Minha têmpora dói como se tivesse recebido a paulada de um marido ciumento.

Deixo os óculos em cima da cama e as garotas viram formas indistintas sob as luzes.

Ao menos os olhos pararam de doer.

Um casal sai pela calçada lá embaixo.

Um casal gay, presumo.

Somente depois descobri que esse hotel é o ponto de encontro da rapaziada alegre antes de rasgarem a noite sórdida.

Já reservara o quarto, o que podia fazer?

Agora só tomo cuidado para trancar bem a porta.

Balanço os pés descalços um pouco enquanto me dou conta de como a bebida está otimamente gelada.

É um desperdício que esta seja uma noite tão solitária.

“Cuidado para não encher a cara e perder o vôo de madrugada, seu FDP!”, ela disse.

Bem, que diferença faria?

Outro aeroporto, outra cidade.

Os mesmos quartos de hotel.

Rio de mim mesmo.

O quanto sou reclamão.

Racionalmente, está tudo indo bem com a vida.

Bem demais, diriam alguns.

Emocionalmente, eu continuo o mesmo insatisfeito.

Sempre foi assim.

Acho que só aprendi a rir de tudo isso.

Olho ao redor.

A televisão desligada e no som, A Love Supreme do Coltrane.

A mala de roupas já arrumada e o estojo de barbear sobre a pia.

Por fim, vejo o casaco caramelo pela fresta da porta entreaberta do guarda-roupa.

Maldita mulher!

Agora ela deve estar em Brasília, fazendo a conexão e maldizendo a todos porque, por sua própria culpa, esqueceu o casaco de frio.

Tudo bem, eu vou colocá-lo na minha bagagem.

Quem sabe um dia nos encontremos de novo.

Quando se está morto, qualquer lugar é “logo ali”.

E Florianópolis não é realmente tão longe assim.

Magnífica mulher!

Postado ao som de My Favorite Things – John Coltrane

Published in: on Maio 4, 2011 at 11:00 am  Deixe um Comentário  
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