A LIBERDADE É BLUES

Oi, meu nome é Sam.
Você não me conhece.
Tudo bem, você deve conhecer quem?
The Rolling Stones talvez.
Ok, se conhece os Stones, então deveria me conhecer.
Não, eu não estou lhe pedindo para me pagar outra dose.
Felizmente, eu posso pagar minha própria bebida.
Você carrega um violão, certo? Toca algum Blues?
“Hoochie Coochie Man”. Bom.
Até que você não é inteiramente detestável.
Seja você um “son of a gun” ou não.
Sabe, até que você é suportável.
Em um bar onde o garçom é um fazendeiro fracassado que não entende direito a sagrada combinação bourbon e água.
É triste, não é? Ele sempre traz mais água, como se estivesse servindo um coquetel.
Além do mais, essa juke-box toca Foxtrot toda a noite.
E nada mais.
Nada contra. Em princípio, eu até gosto de Sinatra.
Mas ainda estar em Memphis e escutar isso o tempo inteiro.
Não sei, lembro o que B. disse uma vez.
(Você sabe quem é BB King, o presidente, não sabe?)
Pois bem, ele disse que “quando vaiam o Blues, é como se você fosse negro duas vezes”.
Eu não sou negro, você diz.
Isso é evidente, cowboy.
Uns entendidos dizem que o rock’n roll é country cantado por negros.
Bobagem.
Se você concorda com isso, peça outra cerveja.
Você precisa.
Eu sei o que estou falando.
Quando o rock nasceu com aquele garoto do caminhão, eu estava lá.
Não, eu não estava ouvindo os discos, como seus pais.
Eu estava produzindo.
Isso mesmo.
Não engasgue, o sobrenome é Phillips, sim.
Poupe-me das críticas standards da “comunidade negra”.
No estúdio não havia cor da pele, havia bons e maus cantores.
Alguns chegaram – e todo Natal eu recebo um cartão do B.
Outros, tão talentosos quanto, morreram sem reconhecimento algum ou moram até hoje na estrada para conseguirem uns trocados e se sentirem vivos – isso corta o coração.
Ascensão e queda é o resumo da história do Blues.
É claro, depois eu produzi o REI.
Eu sei e você agora também sabe.
Mas, hoje eu penso, quanto mérito tem um REI que canta as músicas de seus plebeus?
Ele fez fama cantando as músicas dos meus garotos das plantações.
Foi assim que nasceu o rock’n roll.
Depois de Chuck Berry, Little Richard, Buddy Guy, Cream e todo o resto, eu posso realmente dizer que um caipira que dirigia um caminhão fez mal em gravar músicas de negros?
Não importa o que você diga.
Eu sei que NÃO.
E é justamente por isso que, por sua conta, virá a próxima rodada.
Jack Daniel’s com gelo. Pouco gelo, ok?
Sabe, antes de produzir Elvis, eu tinha passado quatro anos maravilhosos produzindo negros saídos dos campos de algodão do Tennessee.
E agora, antes da última dose, eu lembro de Bobby Rush.
Aquele amaldiçoado guerreiro das estradas.
Quando imagino em como poderia ter sido ruim para aqueles caras, eu agradeço pelo que é.
Eles têm um estilo chamado Blues – até VOCÊ toca  “Hoochie Coochie”.
Eles têm filhos do Blues.
Alguns conseguiram os frutos do Blues.
Se fosse jovem, eu iria para o exército lutar na guerra do Blues.
Porque, meu garoto, depois de todos esses anos…
EU sou o Blues.

Postado ao som de tantas canções que é melhor o documentário Road to Memphis do Richard Pearce.

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  1. […] Pensei que blues produzisse melhor […]


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