Bate-Bola com Oswaldo Montenegro

A Lista – Oswaldo Montenegro

Oswaldo – Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia, quantos você já não encontra mais?

Mr. Black – Você começou de sola, heim? Bem, em dez anos a vida se modifica muito. Todos precisam saber disso. Sem querer parecer indelicado, mas há amigos que não se adaptam. Então você tem duas opções. Ou se adapta a eles para não os perder – e isso é bastante bacana e igualmente difícil – ou, simplesmente, eles são tragados pelo redemoinho de vento dos acontecimentos. Não é culpa de ninguém. É só a vida. Quando se vive muito, dizem que velhos amigos sempre terminam encontrando um jeito de voltar. Espero que um dia voltem.

Mr. Green – Não vejo minha mãe todos os dias, quanto mais meus amigos. Uns muito bons continuam comigo. Outros, por causa da vida, tiveram que seguir outro caminho e mesmo assim continuam próximos. Chamo isso de Internet 2.0. E com a evolução da telefonia móvel não há como ficar muito tempo sem entrar em contato com os que realmente são amigos. Haverá casos em que falaremos só o suficiente. Pra mim, isso basta. É como ouvi uma vez “Não use 7 palavras se 4 palavras resolvem”.

Mr. Brown – Sempre me disseram que amigos é uma coisa que se guarda pra sempre, que amizade dura a vida toda. Acreditei e acredito nisso. Mas o destino é uma coisa complicada de se lidar, nem sempre ele segue o caminho que queremos ou imaginamos e isso acaba afetando algumas relações. Pessoas vão e vem. Mas se eram amigos de verdade eu acho que nunca passarão. Pode ser até que não os vejamos ou não tenhamos contato, e podem até passar dez anos, mas se forem amigos de verdade sempre voltarão. (Respondido ao som de Canção Da América – Milton Nascimento).

***

Oswaldo – Faça uma lista dos sonhos que tinha, quantos você desistiu de sonhar?

Mr. Black – Muitíssimos. Mas pensando bem, se eles se deixaram se desistir, não eram sonhos realmente importantes. Por exemplo, eu tenho um mesmo sonho desde que me lembro por gente. Desse, nunca desisti de sonhar. Então acho que os que se foram eram sonhos passageiros. Eles passariam de todo jeito.

Mr. Green – O único grande sonho que abandonei foi o de ser piloto de Fórmula 1 (O de me tornar igual a Goku foi descartado por motivos óbvios). Não sou um homem que queira muito, porém desejo muito aquilo que quero.

Mr. Brown – Sempre fui muito sonhador, desde menino. Ainda acho que continuo sendo um menino por sonhar de mais. Mas não acho que isso seja ruim, sonhar é bom. Não sei se irei alcançar todos os meus sonhos, mas o importante é não desistir nunca de sonhar. E isso eu nunca farei. (Ao som de Mais Uma Vez – Renato Russo).

***

Oswaldo – Quantos amores jurados pra sempre, quantos você conseguiu preservar?

Mr. Black – Eu não quero falar sobre isso.

Mr. Green – O único amor que jurei pra sempre, sem contar o dos meus pais, foi para o meu time do coração. Continua firme e forte.

Mr. Brown – Isso é muito complicado de se falar e de se lidar. Envolve remexer no passado que muitas vezes não quer ser remexido. Acho que precisaria de uma dose de uísque para poder te responder essa pergunta. Já fiz muitos juramentos que não consegui cumprir, preservar. De uns eu não me arrependo, mas já de outros… Mas a vida é assim, nem tudo é do jeito que imaginamos. (pausa) Preciso daquele uísque… (Ao som de Deslizes – Raimundo Fagner).

Oswaldo – Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?

Mr. Black – Para ser bem sincero, no espelho de agora. Não tenho aquela putaria de ódio patológico ao passado, como se fosse algo romântico de se dizer. Simplesmente, sinto-me melhor atualmente. Agora eu sei que vai doer… antes, eu não sabia.

Mr. Green – Pergunta difícil. Na foto passada em frente ao espelho do agora. O passado não deve ser desprezado. Com as lições que aprendemos temos o direito da escolha: Se vamos tentar acertar ou se erraríamos tudo novamente.

Mr. Brown – É uma mistura. Sempre penso que sou muito diferente de antes, que mudei e fiquei mais forte. Mas quanto mais eu acho isso mais vejo que ainda sou do mesmo jeito que era antes. Não fisicamente, claro, mas na maneira de achar e ver as coisas. Acho que ainda tenho muitas coisas da foto passada. Às vezes acho que ainda sou aquele garotinho cheio de espinhas que acreditava que o amor é um conto de fadas. (Ao som de Jardim Das Acácias – Zé Ramalho).

***

Oswaldo – Hoje é do jeito que achou que seria?

Mr. Black – Está dentro dos planos. Por enquanto.

Mr. Green – Ontem eu era jovem demais para pensar no amanhã. Posso dizer que hoje está bom.

Mr. Brown – Ainda não. Mas está em fase de transição. Sempre buscando se manter dentro dos planos. (Ao som de Novos Horizontes – Engenheiros Do Hawaii).

***

Oswaldo – Quantos amigos você jogou fora?

Mr. Black – É um reflexo da primeira pergunta. Não sei se eu os joguei fora, se eles se jogaram ou se foi a vida que fez isso conosco.

Mr. Green – Nenhum.

Mr. Brown – Acho que não joguei nenhum amigo fora, se não estão comigo é porque não eram meus amigos de verdade. (Ao som de Ando Só – Engenheiros Do Hawaii).

***

Oswaldo – Quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender?

Mr. Black – Eu escrevi em outro lugar que eu “não tenho as respostas adequadas.
(…) Desvendar os segredos da trilha é o trabalho de minha vida. Por enquanto, eu me contento em estar na estrada ao pôr-do-sol. Seguindo em direção ao centro da tempestade com Marty Robbins no rádio. Baladas country contra toda chuva, vento e granizo que possam vir”. Acho que serve essa resposta.

Mr. Green – Às vezes não há o que se entender. Como num filme do Romero sobre zumbis.

Mr. Brown – Uma vez eu disse para uma menina que ela era cheia de mistérios e que eu queria revelá-los. Ela me disse que tinha muitos e que não seria tão fácil. Eu perguntei se poderia tentar e ela disse que tentar não significaria conseguir e eu respondi que se eu ao menos não tentasse eu não poderia saber se iria conseguir… (Essa foi a nossa primeira conversa). Queria ter conseguido descobrir os mistérios dela, que como ela mesma disse depois, não eram muitos, só bastavam ser entendidos. |Essa pergunta me consumiu demais|. (Ao som de Wish You Were Here – Pink Floyd).

***

Oswaldo – Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber?

Mr. Black – (risos) Queria poder falar sobre encontros evangélicos pelas praias do litoral sul, sobre bares escondidos em ruas obscuras ao invés de shoppings, sobre escapadelas de quarto durante o carnaval na casa dos pais e etc., mas é como você disse, Oswaldo, hoje são bobos, ninguém precisa saber.

Mr. Green – Ei Mr. Black, eu quero saber!

Mr. Brown – Oferecer a redenção a uma garota, com a chance de fazer tudo dar certo, seja como for. Deixar estas duas faixas nos levar a qualquer lugar… Tornar tudo real, trocar essas velhas asas por rodas. Mas é só meu segredo bobo. (Ao som de Thunder Road – Bruce Springsteen).

***

Oswaldo – Quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer?

Mr. Black – A principal talvez seja a auto-indulgência. Embora depois de cometê-la uma vez, continue achando imperdoável.

Mr. Green – Uma: Traição. Traição deve ser punida com a morte. Estou feliz, cidadão.

Mr. Brown – Não gosto de mentiras. Mas às vezes somos forçados a ter que usar de algumas. Não me admiro disso. Mas também não é imperdoável. (Ao som de A Dama De Vermelho – Milionário E José Rico, na voz do Grande Waldick Soriano).

***

Oswaldo – Quantos defeitos, sanados com o tempo, eram o melhor que havia em você?

Mr. Black – (risos) Como simplesmente não me conformo em enxergar a trilha com óculos respingados de sangue, sinto saudade do defeito da inocência.

Mr. Green – Sigo meu caminho com todos os defeitos. A diferença é que hoje sei onde guardá-los. Uma vez Miyamoto Musashi disse “Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho.” Concordo com ele.

Mr. Brown – Acho que deixei de ver o mundo com toda aquela mágica que vemos quando somos crianças. Acho que a inocência era o melhor que havia em mim. (Ao som de Blowin’ In The Wind – Bob Dylan).

***

Oswaldo – Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver?

Mr. Black – A Lista, talvez.

Mr. Green – Não sei assobiar. Atualmente a música que me pego cantando é “Ai se eu te pego”.

Mr. Brown – Acho que me agarro aos sonhos que ainda tenho pra sobreviver… (Ao som de Quase Nada – Zeca Baleiro).

***

Oswaldo – Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?

Mr. Black – Fazendo um balanço sereno, em dez anos, as pessoas que realmente me amavam ficaram. As demais – que não me amavam ou que me amaram por um tempo, por qualquer motivo não correspondido – passaram. É como os amigos que não são mais os mesmos. A diferença é que no caso desses, eu me empenharia em conservá-los. No caso das pessoas que não me amavam, nem tanto.

Mr. Green – O suficiente. Reduzir pessoas e os seus sentimentos à números seria uma ofensa ao amor que as mesmas possuem por mim. Não há como medir tudo isso quantitativamente.

Mr. Brown – Tenho sorte quanto a isso. Tenho muitas pessoas que me amam e que me apoiam quando eu preciso. Compartilhando todos os tipos de momentos comigo. (Ao som de Lua e Flor – Oswaldo Montenegro).

***

Postado ao som de:

Mr. BlackMy Back Pages – Bob Dylan

Mr. GreenBlue – Mai Yamane

Mr. BrownSimple Man – Lynyrd Skynyrd

***

E você, já se fez essas mesmas perguntas?

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4 comentáriosDeixe um comentário

  1. Seria interessante se vocês postassem suas respostas aqui nos comentários :]

  2. Mr. Green… o senhor precisa aprender a assobiar, hehehhehehe, se pegar cantando aquela musiquinha é demais pra qualquer um.

  3. As respostas mais obscuras são as mais energizastes e te levam bem próximo da certeza de que rir e fugir são os melhores remédios. Analgésicos e opiódes. Esse foi o melhor texto que já li aqui.

  4. Meus grandes amigos estavam na infância e na adolescência.

    Antes amigos de fé, irmãos camaradas. Hoje só restam boas lembranças.


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