Eu acho que sou um viciado

"Ouvi o grito de dor de um homem que falava a verdade
mas ninguém se importava
Botando pra fora tudo o que sentiu na pele
Mas ninguém lhe dava ouvidos não"

A cada dia que passa digo que o próximo será diferente. Que não farei mais isso, que mudarei, que tudo será melhor. Que largaria tudo isso para aproveitar as coisas realmente boas da vida. Mas, de alguma forma, eu não posso, não consigo. Talvez eu nem queira mais.

Eu acho que sou um viciado.

A sensação de prazer desencadeada em meu cérebro a cada nova dose. A sensação do poder em minhas mãos, um poder que nunca tive. A sensação de euforia a qual o corpo não se acostuma. O cheiro que não sinto, a morte que não vem. Um amálgama de cores que passam ante os olhos, uma brecha de luz em um poço escuro. Um fio de esperança em meio a um cobertor de desespero.

Eu acho que sou um viciado.

De alguma forma, as coisas parecem ocorrer ao meu redor. Mesmo estando ali, ninguém parece me ver, ou me ouvir, ou me sentir. Eu tento gritar, mas nenhum som sai da minha boca. Tento caminhar à minha volta, tentando encontrar alguém que possa me ver, mas eu também não posso andar, pois nem mesmo o chão parece me suportar mais. Fui tudo em demasia. Bom em demasia, mau em demasia, ou talvez ninguém em demasia. Agora fingem se esforçar as pessoas para me esquecer. Ou quem sabe não são elas, mas eu mesmo que tento esquecer de mim, tentando apagar a eu mesmo de dentro das pessoas. Não sei, é tudo tão confuso, tão estranho.

Eu acho que sou um viciado.

É muito tarde para desculpar-me, é muito tarde para voltar agora. O caminho lá atrás já tornou-se longo e tortuoso demais para que eu possa refazê-lo. E como poderia eu andar descalço pela estrada onde tantos espinhos vim plantando? Nem o tempo me quer mais. Vi as pessoas festejando, atravessando novos anos, imergindo em seus afazeres. Mas eu ainda continuo aqui, parado, preso a uma rede intrínseca e interminável de horas que não passam, perdido em uma seqüência infindável de repetições, revendo tantas vezes a mesma cena. Preso em um passado que nunca acaba, que nunca me deixa prosseguir.

Eu acho que sou um viciado.

Viciado em desculpas, em mentiras, em porquês. Viciado em fazer nada, em reclamar que tudo está ruim, mas jamais se esforçar em fazer algo para mudar. Viciado em músicas tristes, em lembranças obscuras que nunca aconteceram, em dias inventados que jamais existirão, em situações difíceis nas quais nunca estive, em prever futuros que nunca se concretizarão.

Mas não importa, agora é tarde. Meus pés já não tocam mais o chão.

Postado ao som de Adam’s Song – Blink 182

Published in: on Janeiro 24, 2012 at 11:54 pm  Deixe um Comentário  
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