O Cachorro

Naquele dia, voltava eu para minha casa, amargurado. Andava a passos rápidos, minhas costas empapadas pelo suor, minha mente pensando incessante, a respiração ofegando. Havia feito tudo errado, mais uma vez.

Havia um cheiro de bosta na calçada, mas eu não havia como senti-lo, claro. Carros transitavam agitados pela rua, buzinas soando, fumaça subindo. Ciclistas passavam ao meu lado ocasionalmente, lentos, rápidos, não-rápidos. Mas pouco importava. Quem quer que fossem, não estariam preocupados.

Praguejei quando precisei aguardar vinte minutos para percorrer dez passos, pois um trem de muitos vagões atravessava minha frente. Acenei de volta para um estranho que para mim acenava do outro lado da rua, fingindo que o conhecia. E continuei, apertando o passo, com pressa de chegar em casa para, por fim, poder esquecer toda aquela merda
de dia.

Estava surrado, rasgado, sujo. Minha cabeça latejava. Minha garganta doía de tanto tossir, devia estar ficando gripado. Uma fina garoa começou a cair sobre minha cabeça. Aquele definitivamente não era meu dia. A súbita vontade de largar tudo, me esconder, sumir, voltou a me assolar, como tantas vezes acontecia naqueles dias.

Mas, finalmente, estava perto. Já estava cansado da caminhada apressada, mas finalmente faltavam apenas cinco quarteirões para chegar em casa. Já avistava de longe a mercearia de fachada verde cujo nome nunca me recordava. Podia ver a sua frente a silhueta de um homem, apoiado em uma moto, com um cachorro o rodeando.

Quando me aproximei mais, notei ser um cachorro de rua. Era extremamente magro, provavelmente não se alimentava há tempos. Estava imundo, e haviam falhas aqui e ali em seu pêlo. Mancava de uma pata, provavelmente havia apanhado de algum transeunte intolerante, ou quem sabe houvesse sido atropelado. Mas parecia estranhamente contente próximo do homem, de meia-idade, apoiado na moto com uma touca preta sobre a cabeça, de frente para a entrada aberta da mercearia de fachada verde.

Diminuí um pouco o passo quando ia passando pelo homem estranho e pelo cachorro. Já ia me afastando alguns passos deles, quando o homem apoiado à moto chamou minha atenção. “Ei garoto”, disse ele, em sua voz rouca, “não estaria interessado em um cachorro?”. Ansiava por chegar logo em casa, mas parei e me virei para ouvi-lo. “É um cachorro de raça, fiel. Está um pouco ferido, mas vai servi-lo bem. Provavelmente foi abandonado há algum tempo na rua, mas está ávido por alguém que o adote.”

Pausei momentaneamente, olhei para o cachorro, que abanava a cauda alegremente e pulava no homem sobre a moto. O homem conduziu o cachorro com os dedos até mim, e o cachorro então começou a pular em minha calça, a cauda abanando, ávido por atenção de quem quer que fosse. Abaixei-me para acariciar rapidamente seu pêlo, e então ergui-me novamente, ereto.

“É uma pena moço, até gostaria de levá-lo comigo, mas meus pais não vão apreciar que eu chegue com outro cachorro em casa”, disse ao homem. “Pena, pois parece que ele gostou de você”, ele respondeu. Despedi-me, conduzi o cão de volta ao homem, e continuei o caminho para casa. Após avançar mais dez ou quinze passos, porém, noto o cachorro correndo ao meu lado, tentando acompanhar meus passos.

Olho pra trás e abro meus braços para o homem sobre a moto, já um tanto distante, em sinal de indagação, mas ele já não estava mais lá. Provavelmente gesticulou ao cachorro para que me seguisse e entrou rápido na mercearia. Droga. Mas tudo bem, daria uma chance ao pobre animal, o deixaria me acompanhar até em casa. Quem sabe haveria um pedaço de pão velho o qual pudesse oferecê-lo?

Por todo o trecho que faltava percorrer, o surrado cão me acompanhou, sempre mancando de uma pata, sempre parecendo ter tomado uma surra há tão pouco tempo, sempre tão magro a ponto de suas costelas aparecerem sob a pelagem. Sempre com um ar de felicidade a sua volta.

Comecei a olhar para o cão, maltratado, e a pensar um pouco em algumas coisas. Como pode ele ser tão agradável, tão leal a um sujeito que ele nem conhece, mas que se assemelha tanto a tantos outros que o maltrataram? Como podia um animal tão rejeitado, tão sofrido, permanecer tão alegre, tão contente, o tempo todo? Como poderia continuar sem reclamar, sem se importar, apenas buscando sempre algo melhor?

Cheguei a conclusão de que deveria ser mais como o cachorro. Gentil até mesmo com aqueles que me rejeitam, me maltratam. Fiel àqueles que se mantém sempre a meu lado. Sem se preocupar com meus problemas, nenhum deles pode se sobrepor à minha felicidade, minha alegria. Continuando sem desanimar, perseverando, não importa o obstáculo. Tranqüilo. Confiante.

Abri o portão da minha casa, estava mais tranqüilo comigo mesmo novamente. Estava até disposto a dar uma chance ao cachorro. Me virei e estava prestes a convidá-lo a atravessar o portão também, quando notei.

Não havia cachorro algum.

Ao som de Amor pra Recomeçar – Frejat

Published in: on Maio 6, 2012 at 11:09 pm  Deixe um Comentário  

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