Eu sou um alcoólatra

Olha, eu sou um alcoólatra
E isso não é legal de se dizer
Não faz parte de alguma “persona descolada” que criei
Para mim sempre foi real e custou um dedo no jogo de facas
Ser alcoólatra é uma constatação
É assim que eu encerro meus problemas
Quando você não sabe mais o que fazer e todos estão sofrendo
Você não pode ir embora e nem há lugar para ir, mesmo se você quisesse
E chove o dia todo e não há nada na televisão
E sua costas doem e nenhum remédio cura
Toda respiração parece que vai lhe matar e não há céu algum em vista
A única coisa que você pode fazer é pedir outra dose

Bem, eu sou um alcoólatra.
Mas não é como se não houvesse uma garota
Ou um bom motivo para se levantar da cama
Ela é boa demais para deixar você rastejar na sujeira
Mas às vezes você se esquece e o mundo desaba
E eu simplesmente não consigo segurar
Às vezes é tarde demais, às vezes eu nem percebo
E dessa vez, o sino não soa para todos
Nesse domingo cheio de mosquitos
No dia seguinte você tem que trabalhar
Mas a ressaca é grande demais para lhe ameaçar
A única coisa que você pode fazer é pedir outra dose.

Olha, posso deixar de ser um alcoólatra
Cavalgando com minha garota e o campo envolta
Qualquer lugar faz um relacionamento feliz
Contanto que não falte luz no pôr-do-sol
Mesmo que falte luz em mim, às vezes
Trabalhando no carregamento de caminhões
Não falta tempo para jantar em casa e amar toda noite
Porque eu não vou perder a vida pra ganhar pão
E quando me pedem para um serviço longe
Eu recuso, o caminhão roda e se distancia
Mas no fim da linha, ela não estará lá
E eu não vou precisar de outra dose

Postado ao som de Everybody’s Hurting – Jacob Dylan

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Published in: on Julho 22, 2012 at 11:30 pm  Deixe um Comentário  
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O mau do homem é beber sozinho

Há aqueles que se sentem independentes da convivência humana. Gente que não precisa de ninguém, que pode fazer qualquer coisa sozinho, que é completo. Eu, sinceramente, prefiro estar numa mesa apertada, com cotovelos se empurrando, dividindo a metade da última garrafa de whisky, do que sentar-me no sofá e beber o que for, sem ninguém. O mau do homem é beber sozinho.

Na eterna ânsia de multiplicar, eu prefiro dividir. E na nossa mesa dividimos a bebida, a comida e a conta. No dia seguinte, a ressaca é em grupo, vendo TV e comparando os atributos das conquistas da noite anterior. E essa é uma das partes boas, quando não conseguimos lembrar de tudo que aconteceu e acabamos por incrementar a narração, por mentir, sem maldade, para que nossos amigos estejam sempre entretidos. Por mais que todos saibamos que é bem provável que o que o Leonardo falou sobre as gêmeas no banheiro seja mentira, rimos e ficamos espantados, duvidamos, mas só um pouco. E chega a nossa vez de contar a nossa estória. Uns detalhes a mais não fazem mal a ninguém. Isso é beber junto.

E não somente beber, mas viver. Se fôssemos sozinhos, quem faria coro nas arquibancadas? Pra quem contaríamos nossas “mentirinhas”? Quem sacanearíamos a cada atualização de status? Um homem de verdade entende que não é só. Sabe que um dia pode precisar de qualquer um. Até de um botafoguense.

E o homem que bebe só, independente e supremo, está sentado, folgado e confortável. Sem ter quem sacanear pelas derrotas do Vasco, sem ter quem “humilhar” pela “filhote de cruz-credo” que pegou na balada. O homem que bebe só não conta estórias, nem histórias, nem comenta nada. Não por não ter o que falar, mas por não ter quem ouvir. E a ressaca chega, e o que ele fez na noite anterior não interessa a ninguém. Quase tão solitário quanto um torcedor do Fluminense.

Por isso prefiro beber junto. Tomando cuidado pra um cotovelo não derrubar meu copo – Deus me livre que isso aconteça – rindo e atento. Bolando coisas pra contar e fazendo vaquinha pra pagar a conta.

Por André Filho

Pra ser ler ouvindo O Último Bar – Matanza

Published in: on Julho 17, 2012 at 11:43 pm  Comments (2)  
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Manias

Engraçado… Antes de te conhecer, eu tinha várias manias. Fazia dancinhas idiotas, sorria de forma exagerada e psicótica pra causar risos, mudava o tom de voz em algumas frases pra causar efeito… Manias que moldavam o que sou. Hoje em dia eu não as suporto mais, pois todas me lembram você. Elas se encaixavam perfeitamente na nossa convivência e fazia tudo ter mais sentido.

Essas velhas manias me atormentam atualmente, pois não gosto de me lembrar do que houve. Não gosto de me lembrar de como você reagia a elas. De como você sorria no fim de cada uma delas. Mas, me diga… Como esquecer, se tais coisas estão cravadas na minha essência? Por isso criei uma única e mundial mania… A mania de não ter manias. Paradoxal, eu diria. Mas, infelizmente, essa me faz lembrar você mais do que todas as outras juntas, pois é a única que surgiu por sua causa.

Passado infernal.

Postado ao som de Black – Pearl Jam

Published in: on Julho 11, 2012 at 4:54 pm  Deixe um Comentário  
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Confissões


Tenho que confessar que…
Hoje eu tentei pensar em você, lembrar de como era seu rosto.
Da beleza que sempre irradiava dele.
Dos seus olhos cor de ardósia.

Mas não consegui.

Juro que quanto mais tentava mais longe seu rosto ficava.
Parecia que se distanciava de mim como aconteceu com nosso amor.
Não que eu quisesse isso, muito pelo contrário.
Sempre achei que você fosse ficar em minha mente para sempre, mas as coisas quase nunca são como desejamos.

E acabamos caindo nesse abismo.
O abismo da indiferença.

Aqueles dias, em que falavamos sobre o amor tão docemente, parecem tão distantes agora.

É uma pena, tenho que confessar…

Pra ser ler ouvindo Ando Só e Pra Ser Sincero dos Engenheiros Do Hawaii