NÃO SOU DO DIREITO E NEM DESSES FDP EU GOSTO.

— … não é nem oito horas e já temos alguém bebendo.
—Sou assim, urgente.
— Sempre foi.
— Sabe o que eu gosto daqui? A ausência de pessoas.
— Todos os quartos estão lotados.
— Não, querida, falo de permanência. Rostos familiares no dia seguinte. Há muitos hóspedes indo e vindo, mas nenhuma realmente ficando. Por isso eu gosto de beber aqui.
— Mas você nunca foi de ficar no mesmo canto por muito tempo.
—Ei, não lembre o passado. Este é um hotel e eu sou hóspede, você, mocinha, devia me tratar melhor. *Risos*
— *Risos* Estou sacaneando com você.
— *Piscar de olhos* Eu sei.
— Esses anos todos, eu achava que você não me reconheceria.
— Memória eidética.
— Sei, e você esteve por onde?
— Nem sei ao certo. Conheci outras estradas, outras pessoas. Para minha sorte, acho.
— Doze anos, não foi? Muito tempo… Não me diga que se casou por aí.
— Casei, separei, casei de novo e a audiência do segundo divórcio está marcada pra terça que vem. Acho que vou ter que passar essa…
— E o que você está fazendo aqui nesse fim de mundo, buraco do caralho?
— Vim ver um amigo.
— Aqui?! Pensei que você tinha saído correndo na primeira chance, como se devesse dinheiro. *Risos* Quem é realmente seu amigo?
— Aquele cara ali. Camisa de botão, calça jeans e barba espessa.
— Sei, o vereador.
— Acho que sim, só conheço a descrição.
— E por que você não está bebendo com ele?
— Porque eu vim aqui prendê-lo.
— *Risos* Prendê-lo?! Sei, pra isso você não precisa de uma ordem do juiz?
— Depende. Se fosse por ele bater a 130 km/h em um carro parado dentro da cidade, certamente eu precisaria de algum juiz. Mas não é bem isso que eu vim fazer aqui.
— Isso aconteceu quando?
— Nove anos, longe daqui. Pela lei, o crime está prescrito. Os policiais não testemunharam quando eu não lhes dei “o dinheiro pra gasolina da viatura”.
— Alguém morreu?
— Duas pessoas.
— Próximas?
— Sim… E sem os policiais, a Justiça não pôde identificar o infrator. Em alguma prateleira, o crime prescreveu, bem a tempo do camarada ali concorrer ao quarto mandato.
— Oh, meu Deus do céu, você vai atirar nele, não vai?!
— *Risos* Claro que não, mulher! Quem você pensa que sou, Clint Eastwood?
— É o que eu teria feito.
— Eu também, se fosse um arremedo de mim mesmo.
— Tudo se resolvia agora, você daria o fora e ninguém saberia.
— Eu saberia. E, no fim do dia, é a única coisa que importa. Fora de Avenida Brasil e dos filmes de faroeste, um crime nunca resolve outro. Colocar o vagabundo na cadeia é bem mais difícil.
— Você trabalha para o polícia, não é?
— Nem, esse é o único caso que me interessa.
— Já pensou em chamar alguém pra dar um cacete nele?
— *Risos* Aleluia, irmãos! Pulp Fiction é aqui!
— É em todo canto. Basta procurar direito.
— Não, uma surra não paga os débitos dele. Não, nem de perto.
— Você fala isso porque vem de fora, da capital, sei lá. Aqui a liberdade depende do quanto você pode pagar. Todos fazem qualquer coisa (drogas, armas, garotas de menor, garotos de menor…), basta acertar o preço.
— Por isso aqui é o cu do mundo.
— Não se pode fugir de como o mundo gira.
— Esse é o argumento dos covardes.
— É o argumento dos realistas.
— E os realistas estão todos mortos por dentro.
— Não é assim…
—Ah, é. Meu vizinho ganhou uma bis comendo o rabo do vereador, então eu vou comer também! Ei, garota, eu já estive nesse buraco do caralho uma vez. Conheço a lógica do covarde, ele tenta justificar seu próprio desvio de caráter pelo comportamento escroto dos outros, como se as pessoas nascessem com genes da desonestidade e ninguém tivesse a chance moral de decidir sobre certo ou errado.
— Nem venha falar como o padre na missa de domingo.
— E olha que eu nem sou celibatário… Você sabe.
— *Piscar de olhos* Ninguém aprende nada de bom nesse lugar.
— Bom, então dê o fora daqui. Esse ambiente é tóxico. Eu fiz isso doze anos atrás.
— Mas fez a viagem sozinho…
— É sozinho que cada um precisa fazer.
— Não sei se posso. Eu nasci aqui, acho que fiquei entorpecida. Meu tempo da loucura passou, parece que me contentei com velhos gordos para marido e o circo ridículo ao meu redor não me incomoda mais.
— Eu sei, fazer a coisa certa é fora de moda. Legais são os escrotos maconheiros sacanas. O grande desafio é ser um dos mocinhos, o mundo está cheio de bandidos.
— Isso é de um filme de faroeste?
— Quase, é Preacher.
— Qual ano?
— 1996, acho.
— Eu tinha sete anos.
— Eu estava bebendo minha primeira cerveja.
— Eu sinto saudades. Do tempo da loucura, sabe?
— Claro que me sei, os melhores dias.
— Ai tudo mudou. Você partiu, eu fiquei. Você prende pessoas, eu sirvo mesas.
— Eu não prendo pessoas, vou prender esse cara ali. Mas, naquela época, você poderia ter ido embora. Depois.
— Eu sei, mas sempre tem alguém dizendo que você deve crescer onde nasceu, junto aos pais e amigos. Eles só não avisam que pais morrem cedo e amigos vão embora mais rápido do que você acende o primeiro cigarro de pretensa libertação.
— No fim, dizer que ama sua cidade natal é só mais uma desculpa.
—A menos que você seja uma adolescente idiota, “compelida” a comprar a mesma roupas de sua amiga invejosas.
— *Risos* E nem somos mais adolescentes.
— Um dia eu fui. Mas você, sempre o vagabundo pronto pra ir embora.
— Que horas são?
— Oito horas.
— Eles chegaram.
— Matadores…?
— *Risos* Quase. Está vendo aquele carro ali?
— Sim, a Hilux do vereador.
— E aquele outro?
— A van? Sim, o que tem?
— É a imprensa filmando tudo. Daquele jornal popular e igualmente vagabundo da região. Você já ouviu falar em “prisão civil”?
— Ei, nem me venha com o seu diploma em Direito.
— Eu não sou formado em Direito, nem desses filhos da puta eu gosto. Mas sei que qualquer cidadão tem o direito de prender outro quando ele comete um crime em flagrante.
— Que crime?
— Observe, o vereador pediu a conta de seis cervejas, pagou e saiu em direção ao seu carro.
— E?
— Espere…
— Ele entrou no carro e está saindo, qual o crime?
— Dirigir com a concentração de álcool por litro de sangue superior a seis decigramas.
— Isso não vai dar em nada.
— Talvez não desse em outra época, mas é eleição e um “escândalo” desse vai ser o bastante para que o filho da puta não seja eleito, como aproveitarão os adversários. E sem o cargo, ele não tem outra renda, está falido. Agora, se você me der licença, baby, vou prender um vagabundo em flagrante.
— Então, ele vai perder tudo?
—Não, querida, ele vai perder tudo quando for enrabado na cadeia.

Postado ao som de Rip This Joint – The Rolling Stones.

Published in: on Agosto 14, 2012 at 11:39 pm  Comments (2)  
Tags: , , , ,

The URI to TrackBack this entry is: https://naestradaaopordosol.wordpress.com/2012/08/14/nao-sou-do-direito-e-nem-desses-fdp-eu-gosto/trackback/

RSS feed for comments on this post.

2 comentáriosDeixe um comentário

  1. Eu também não gosto desses filhos da p*…

    • Veja bem, da mesma forma que havia um advogado defendendo esse criminoso, também havia um promotor de justiça tentando promover a justiça, por isso esse ódio contra quem é formado em direito é uma coisa boba.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: