Editorial.
Planeta Diário.

Por Clark Kent.

Meu problema talvez seja me preocupar com cada drama pessoal.
Eu me importo com cada pessoa que não recebe água do carro pipa na seca.
Eu me importo com as pessoas que perdem suas casas pela enchente “não prevista” do governo.
Esses dramas pessoais me comovem porque eu sei que ele é partilhado.
É levemente familiar. Podia ser comigo.
Meus brasileiros perderam suas vidas em desastres coletivos.
Crises governamentais tiram empregos dos meus amigos.
Recessão transforma meu dinheiro em menos que nada.
Tudo isso acontece agora, comigo e com você.
Se você tirar os olhos da barriga sarada, há uma guerra inaudita sendo travada lá fora.
E o pior, nas ferramentas imediatas de comunicação as pessoas permanecem inacreditavelmente fúteis.
Como se não fosse com elas.
Há muita informação idiota pra perder tempo se concentrando no que ainda vale a pena lutar.
E ainda vale a pena lutar por muita coisa.
Mas cada pessoa que bebe ou é traído ou acaba o casamento resolve poluir as redes sociais com reflexos patéticos e medíocres do que ainda acham que a vida devia ser.
Não se cabem em sua solidão e embarcam em frenéticas postagens com a ferocidade de uma notícia importante.
Reflexo da fina película que ainda separa hoje em dia o jornalismo da publicidade.
E onde isso é mais seriamente sentido e detestavelmente incentivado é no WhatsApp.
Não que eu seja administrador de algum grupo, meu leitor se identificará sozinho.
É preciso muita paciência ou tempo ou desemprego ou drogas pra se importar com cada solidão desesperada postada.
Hoje em dia o aplicativo virou professor das pessoas.
Nem digo psicológico, porque este (em tese e às vezes) lhe ajuda a se entender.
Falo em professor, porque ele ensina as pessoas a serem todas ilusórias.
Uma difusão frenética de informações que produz uma religião frenética de pessoas frágeis como seus celulares substituíveis a cada ano.
Muito por isso, não respeito os jornalistas hoje.
São publicadores de futilidades com suas câmeras no pescoço.
Ninguém mais se importa com a seca.
Todos querem os vídeos eróticos.

Postado ao som de Only A Pawn In Their Game, de Bob Dylan

Published in: on Fevereiro 21, 2015 at 4:35 pm  Deixe um Comentário  

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