Local de Paz e Prosperidade

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No vídeo, o lutador mais jovem abre um corte de sete centímetros na testa do oponente. O lutador experiente fugiu metade da luta. Como não faria? Aquele jovem era mais forte, rápido e sabia técnicas que o outro não achava necessárias.

Era setembro de 1999.

Na época, o MMA ainda era chamado “vale-tudo”. E valia mesmo. Valia o que o velho lutador dominava e também todas as novas cenas marciais que o mundo inventava. Era o crepúsculo dos caras que lutavam e voltavam para seus empregos no contraturno. A disputa era desigual. Não que ele reclamasse. Era um soldado. Lutava. Nascera para aquilo. O boxe se tornou velho, o jiu-jítsu era ainda indispensável. Mas todo socador de bêbados no sul da França ou viciado em ópio de Hong Kong era consultado.

Chamaram-no para aquela luta na sexta, ele lembrava, para enfrentar um jovem oponente. Ele não pensou duas vezes. O adversário era um idiota que iria morrer. Naqueles tempos quando se morria e vivia pelo octógono. O nome dele, algo como sorvete. Não me lembro. Era o juvenil que aquele ex-campeão soterraria com as cicatrizes para voltar ao topo.

O camp foi o de sempre. Amigos e caras próximos que ele respeitava. Era suficiente. Sempre fora. Até aquele setembro. Rosto impassível e pressão nos golpes todo o tempo. O ex-campeão tinha trinta e cinco anos e os pulmões não eram dos melhores. No fim do primeiro round, ele só via a cortina de sangue da testa. Sete centímetros. Na volta, o retorno do cruzado em um upper, combinado com a expansão de uma sequência de socos, transformara a sua percepção em nublado de vermelho e frustração. Na queda contra as grades, o instinto de batalha o fez se agarrar nas pernas do oponente. O homem de gelo bateu cinco vezes de punho fechado nas costas da cabeça do velho lutador. Golpes ilegais hoje, mas era uma época gloriosa em que valia tudo. No vídeo, hoje, parece alguém agarrado pateticamente os pés de outro, implorando morte rápida e honrosa. Ou o fim da luta. Na verdade, o ex-campeão ainda queria derrubar seu oponente naquela hora, ainda queria vencer. Mas não era o suficiente. Não mais. Nas reprises do canal de lutas parece uma rendição patética. Mas ele tentou. Até o último minuto, ele queria matá-lo no octógono. Mas ele não podia. As câmeras não captam o que ele sentia.

Ele ainda alimentava a ilusão de ser o campeão. Mas a vida disse não.

Um ano depois, ele voltou a lutar. O novo oponente não instigava e o jovem lutador que o vencera era uma estrela ascendente do business que se tornaria o MMA. Ele venceu um ano depois, mas não havia glória. Era hora de parar. Novembro de 2000, ele pendurou as luvas. Mas nunca se acostumou como os punhos leves.

 

Ao som de Everybody’s Talkin’ – Fred Neil

Published in: on Março 21, 2015 at 8:40 pm  Deixe um Comentário  
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