Velho, Meu Querido Velho

2015-06-28 16.03.40

Era um dia bonito, agradável. O céu irradiava uma beleza incomum, parecia prever algumas emoções que haveriam de se suceder naquele dia. O vento assanhando meus cabelos, o sol no rosto. Tudo parecia estrategicamente colocado ali.

Chegando ao pé da serra a emoção já começava a tomar conta. O ar parecia diferente, aquele cheiro de mato nunca tinha me parecido tão agradável antigamente como o parecia agora. Aquela ladeira que antes parecia interminável pelo seu tamanho, hoje foi percorrida de uma forma rápida.

Já conseguia avistar quase tudo daquele passado.

A igrejinha ao pé da serra permanecia com os mesmos traços. Sentar nas suas escadas e apreciar as montanhas e árvores que cobriam a paisagem ainda parecia uma ótima ideia. Correr pelas suas laterais, com aquele medo de cair me parecia uma ótima forma de brincar.

O juazeiro parecia cansado. Decerto estava mais velho, um tanto quanto sem cor, mas ainda estava ali. Aposto que seus galhos ainda aguentavam se alguém quisesse subir neles. Ele era forte. Acho que sempre vai permanecer ali, naquele canto. Como se guardasse e protegesse a casa.

Sobre a velha casa, mudara a cor das paredes, mas o sentimento de alegria e paz ao adentra-la ainda fazia tremer o coração. Quantas lembranças aquelas paredes poderiam trazer. Lembranças de uma infância querida.

Oh! Distância!

Mas ainda consigo ver com bastante nitidez aquele passado… os primos correndo por aqueles cômodos, as tias conversando, a Avó oferecendo comida. Tudo estava estranhamente no mesmo lugar. As portas, janelas, aquele teto antigo que eu fitava por horas quando pequeno, sempre antes de dormir. O que me assustava também era o tamanho das coisas. A casa parecia bem menor. Aqueles batentes do lado de fora já não eram mais tão assustadores, conseguia subi-los sem muito esforço.

Mas o que mais me espantava e me fazia tremer era aquela foto colocada estrategicamente na sala. Sempre quem entrava tinha que passar os olhos por ela. Nela estava Ele, sentado, imponente apesar de seus 84 anos vividos, roupa inteiramente branca, sua bengala e seu chapéu inseparável. Olhar implacável. Rosto cansado pelo tempo. Seu chapéu sobre a cabeça, cabelos devida e cuidadosamente penteados, grandes, lisos, bonitos… Brancos. Parecia que a qualquer momento iria entrar por aquela porta e pedir para desamarrar as sandálias dele. Mas sabia que era impossível. Estava vivo apenas naquelas lembranças. Ótimas lembranças. Pois cada bloco de tijolo, cada cor, cada planta que crescia naquela terra lembrava sua pessoa…

Confesso que não consegui entender bem o sentimento que senti… Era um misto de saudade com arrependimento. Arrependimento sim, de não ter vivido mais daquilo. De não ter aproveitado.

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Meu coração!
O que eu sou hoje são lágrimas!
O que eu sou hoje é saudade!

Pra se ler ouvindo Naquela Mesa – Nelson Gonçalves

Published in: on Junho 29, 2015 at 7:16 pm  Deixe um Comentário  

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