Toda Mulher é Uma Tola

xD

Terça-feira.

Não quarta de futebol ou quinta véspera de fim de semana.

Ou ainda fds, no qual as pessoas são menos verdadeiras consigo.

Um dia sem festejo inútil ou expressão de maravilhamento com a vida.

A terça é mais morta que a segunda.

A segunda ainda tem o ódio, a terça não tem nada.

Nada, exceto eu. Por isso bebo hoje.

Reprise do UFC na tv sem áudio e na outra, Zeca Baleiro e o coração do homem bomba.

No intervalo em que o garçom leva o copo vazio e traz outro, penso em minha vida.

Em todos os labirintos e becos sem saída que me trouxeram à porta desse bar.

Sorrio ao perceber como, por um tempo, acostumei-me à vida boa.

Naquela guerra, matava-se para comer e todos estavam famintos.

Éramos mais resignados com as pequenas adversidades.

Hoje há certo conforto que só requer um bom lugar em frente à TV para um programa reprisado.

Dê a todo homem o que ele acha que merece e as suas preocupações seguintes vão parecer fricotagem besta de garotas virgens.

Na maior parte dos casos, os homens permanecem em frente à TV.

Mas alguns deles, algo ínfimo para desafiar o paradigma, eles exigem mais do mundo.

Esperam a ressaca da festa da comemoração da realização de seus sonhos passar e partem em busca de mais.

Homens que estão sempre em eterno ciclo que fome e saciedade.

A cigana estava certa, os homens vivem muitas vidas – desde que queiram.

E eis-me aqui. Terça feira. E limiar de novos planos.

Na beirada de jogar pra cima a vida boa e cair na estrada de novo.

You can call me a madman but I’m spoken for

you can take my possessions, leaves me an open door

Bela cerveja. Penso se a troco pelo uísque.

Por que não, na verdade? Eis a pergunta que constitui o fardo dos inconformados.

Meu olhos procuraram o garçom.

Desistira da previsível cerveja, queria o velho, amargo e incerto uísque.

Avisto-o voltando com o chopp e, dentro do conhecido líquido amarelo, vejo-a entrando no bar.

Vinha encontrar as suas amigas que estavam na minha mesa ao lado.

Bonitas, nada espetacular. Como ela.

Mas ela tinha a chama. O fogo de Prometeu.

E um dia naquela guerra horrível, ele me deu esse fogo. E deu vida. Como no mito.

Ela se aproximou sorrindo com a mesma informalidade com que nos encontramos pela última vez.

Nem era noite ainda. Ela vinha como se estivesse saído da praia naquele instante.

“Eu conheço você, gata”.

“Eu também lhe conheço!”

“Mas não lembrava de sua versão californiana. Tanga ou canga ou como isso se chame. Biquine, chinelos e tudo o mais. O que você faz por essa bandas?”

“Vim conhecer sua Califórnia”

“(Risos) sério? Minha Califórnia? Ela é minha há algum tempo.”

“Pois é, você disse que viria para cá e eu nunca soube porquê. Hoje eu vendo essa praia maravilhosa, imagino o motivo de seu desespero.”

“Mas eu aproveito muito pouco todo o sol e a felicidade de verão”.

“Mas tenho certeza que você adora esse calor e de estar perto da imprevisibilidade do mar.”

“Foi pra isso que lutei a guerra, para estar perto dessa imprevisibilidade marítima potencial.”

Eu sei, eu sei. E você tinha razão. Bela cidade. Beth Hart tinha razão em My California. Pena nos vermos assim por acaso, na noite do pijama (ela apontou para a mesa ao lado).”

“Ah, noite do pijama só com cromossomos X, nenhum Y, no bar, na terça? Meio deprimente, não?”

“(risos) Não! Compartilhando experiências… Há quem diga que contar é melhor do que fazer.”

“Não sei. Acho que falta um pouco de álcool nessa afirmação. E mais, quem fala isso não deve fazer com muita frequência.”

“Isso não pode ser regra, acredite!”

“Não tenho nenhum compromisso com a verdade. Só com a balbúrdia.”

“O que é verdade? As verdades costumam ser sacais”

“Exato. Prefiro as mentiras. Ou melhor, as meias verdades. Mas me diga, essa festa do pijama, com cinco, seis, sete com você, garotas seria uma festa do pijama erótica?”

“(Risos) Espero que não. São só mulheres falando de experiências pós-traumáticas”.

“Hmmm. Sei. Uma suruba lésbica. Essa sempre foi minha impressão dessas festas. Mas me diga, pós-traumáticas e eróticas?”

“Também. Acho que mulheres falam mais dessas coisas do que homens”.

“Também acho. Mas elas só não falam isso com seus homens.”

“Homens falam sobre economia, carros e Lava Jato. Esse é o problema”

“Homens falam sobre poder e sexo.”

“Homens mentem uns para os outros. Já as mulheres omitem”

“Percebi que a pauta de hoje vai ser a maldição dos homens. Eu entendo. Juro. Vocês, gatas, discutem entre si e nós bebemos sobre isso. Lei natural, sempre foi assim, desde as cavernas.”

“Os homens são uma maravilha. Basta saber usar e não se apegar. Aí dá tudo certo! E olha que não costumo falar mal de homem, sério mesmo!”

Just like a toy. Pois é. Sempre entendi isso. Nunca me ofendi em ser usado. É como um café que se toma com uma pessoa. Depois do café se decide se vai ficar para o jantar ou não. Isso de só os caras se divertirem descompromissadamente com os brinquedos que Deus lhes deu é muito machismo ou feminismo, nem sei mais hoje em dia. Tudo é desinteressante a esse respeito.”

“Nossa!”

“Depois do café a vida volta ao normal, sem culpa se não ficaram para o jantar”.

“Pois é, que bom estar conversando de novo com você. Hoje tive uma hora e meia para fazer um almoço especial. Juro que foi o tempo de maior expectativa dos últimos cinco anos. Depois do almoço tudo voltou ao normal. Era só uma expectativa idiota mesmo de projetar felicidade nos outros.”

“Depois da refeição tudo volta ao normal.”

“É isso o que vai tornando tudo normal!”

“Mas a única pergunta importante é se foi uma boa refeição.”

“Foi uma ótima refeição!”

“Então ótimo”.

“Deixa eu mudar de assunto, sabe aquele teu blog?”

“Sim, esteve meio parado. Um pouco acostumado com a vida boa. Será o assunto da festa do pijama?”

“Deixa de ser besta! Tu não escreve mais por lá não? E, para sua curiosidade, o assunto da festa do pijama será términos, putaria, sex shop, chifre e consertos.”

“Normal. É o que os caras esperam dessas noites feminilizadas. Mas vou voltar a escrever. A vida foi complicada por uns meses, um trabalho onde diariamente se trava um duelo em que apenas você joga pelas regras. Terminou minha veia poética sendo deixada um pouco de lado.”

“Nada é mais complicado que a vida. Tinha esquecido desse seu lado heroico da vida real.”

“E a gente sabe que poesia sobre a vida real de merda, exceto Bukowski”.

“Talvez. Mas essas coisas profissionais são ótimas para nos distrair de nossos infernos pessoais e astrais. Não dá nem tempo de sofrer”

“Pois é, antes eu tinha mais tempo de me embriagar e escrever todos os textos que isso envolve.”

“Os seus textos lá no blog são identificáveis. Eles precisam de um pouco de Bukowski, muitos bares de chão cuspido, sem garçons e drama.”

“Todos precisam de bares com chão cuspindo e garotas dramáticas. Mas nem sempre. As vezes a vida pode ser boa, alguns precisam mais da poesia do que outros. É como um balde de vomito. O importante é que naquela cuspida do desespero ele sempre esteja lá.”

“Sei, mas entenda o que digo. A espontaneidade é tudo. Uma vez fiz o seguinte: eu e um cara fomos beber na casa de um amigo, pegamos um caderno e fizemos um texto juntos, como um diálogo. Escrevemos coisas loucas. Sem amor, só desejo.”

“São os melhores textos.”

“E tinha você na estória.”

“Bom saber. Adoro quando apareço como desejo nas estórias.”

“Engraçadinho! Os homens são mais fortes que as mulheres para persistirem nos pensamentos alheios.”

“Não sei se concordo. Há garotas bem persistentes no pensamento. Agora mesmo tenho certas recordações recorrentes sobre tardes após o expediente em que não se suava porque o calor era grande demais e não havia um ventilador na casa ou mesmo a dez quilômetros”.

“Essa não era para ser uma conversa respeitável?”.

“Era, mas você sabe, pouca roupa não combina comigo. Tendo me concentrar, mas sempre esqueço que você está vestida”.

“Nem me fale que você está desconsiderando mentalmente esse biquíni por causa da cicatriz”.

“Que cicatriz?”

“A que tenho nos seios”.

“Não é do meu tempo. Nunca vi”.

“Viu sim. Até tateou bem. Como um cego”.

“Nem. Não me lembro”.

“Lembra, sim!”

“Isso é um impasse. Precisamos de tira teima”.

“Homens…”

“Dramas. Mulheres.”

“Mas sabia que guardo boas lembranças? Você me deixou tranquilo na primeira vez. E pela manhã também. Não sei se lembra…”

“Você nunca me disse que foi a primeira vez. Espero ter sido gentil”.

“Eu disse no calor de tudo que viria, mas não quis fazer daquilo um evento. Foi muito massa. Eu gostaria de agradecer por termos feito ao som de Bob Dylan, pelo prazer de primeira e pelo abraço no final”

“Isso é muito lisonjeiro”.

“Quando estamos embriagadas, todas as mulheres comentam como foram suas primeiras vezes. Ninguém nunca contou uma história mais legal que a minha”.

“É uma bela peça de literatura erótica, então”.

“Acho que estou conduzindo essa conversa certinho. E você está perguntando e pedindo o que eu quero!”

“Você está me seduzindo?!”

“Não mesmo. Algumas pessoas, em alguns aspectos, são previsíveis! Se olhar bem, vai ver”.

“Vocês, mulheres que ainda frequentam da festa do pijama, me acham previsível? Mulheres. Sempre se achando no comando”.

“Nada, pessoalmente, eu acho melhor ser mandada”.

“Estamos falando sexualmente, claro. Não quero que nenhuma feminista escute isso e venha conversa merda comigo”.

“Mandada exatamente sob esse aspecto que está na sua mente agora”.

“Já que estou indo por seu caminho e sendo pacientemente seduzido, parece claro que você não quer ficar nessa festinha sem graça aí”.

“O que quero? O que você mandar. Só que dentro das minhas regras”.

“E há regras? Nunca soube. Quais?”

“Basicamente, que seja bom para os dois e que exista amnésia seletiva no dia seguinte. Ah, e que não falemos em leis. Eu não divido o pão com as amigas”.

“Parecem ótimas regras. Embora eu esteja aberto a uma suruba com a garotinhas da mesa ao lado (risos)”

“Isso foi forte. Empolgante. Mexeu com a libido, sabe? O verbo querer é muito forte.”

“Sexo é destituído de todo tabu quando você enxerga como um meio. Meio pra solidão, para a felicidade, para o desespero, para a procriação. Não há nenhum fim no sexo. Há um fim depois do sexo”.

“Eu fico com o fim do sexo chamado felicidade. Mas eu sei que ainda quero que você mande. Isso envolve só sedução e eu posso arrancar os pedaços das suas costas por diversão. Mas qual é mesmo o fim depois do sexo?”

“Essa é a pergunta. Quem resolve fazer sexo deve pensar nisso. Ou não. Pode ser apenas para diversão. Como o vinho. Sexo = vinho”.

“Perfeita analogia, garoto!”.

“Ainda assim, adoraria que você arrancasse alguns pedaços das minhas costas”.

“Mas na verdade preferiria fazer outras coisas”

“Tudo bem, eu não estou fazendo nada mesmo. Só diga a palavra mágica. Exerça a vontade e o poder. Abrace o chamado das profundezas. Do irracional”.

“Eu não sei o que é mágico pra você, mas já que esse diálogo é de submissão, o coerente é dizer que faço o que você quiser, sem trocadilhos”.

“Duvido. Preciso de uma prova. Hoje é uma perfeita noite de terça. O que me faria sair daqui, sem qualquer garantia? Preciso de uma prova”.

“Qual a natureza da prova?”

“Uma irrefutável”.

“Querido, não posso te provar agora por diversas razões e circunstâncias. A principal delas: a moral pública e os bons costumes”.

“Entendo”.

“Mas seria capaz de te convencer. Garanto.”

“E esta festa de estrógeno, profundamente ultrajante ao feminismo?”

“Quem liga para o feminismo quando eu quero dar?”

“Essa seria a essência do feminismo, não?”

“Foda-se. Você acabou a cerveja?”

“Estava pensando em pedir um uísque, mas estou verdadeiramente interessado na cicatriz”.

“Isso está parecendo enredo do Almodôvar”.

“E não é bom?”

“Dos melhores. Conseguiremos desvincular o ‘amanhã de manhã’?”

“O amanhã é superestimado, gata. Vamos tomar um café, a vida é só a vida. E toda mulher é uma tola. Como Deisy”.

“E só existe dois tipos de homem: Tom e Gatsby.”

Para se ler ouvindo Sean Rowe – “1952 Vincent Black Lightning”

Published in: Sem categorias on Agosto 16, 2015 at 10:36 pm  Deixe um Comentário  

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