O mau do homem é beber sozinho

Há aqueles que se sentem independentes da convivência humana. Gente que não precisa de ninguém, que pode fazer qualquer coisa sozinho, que é completo. Eu, sinceramente, prefiro estar numa mesa apertada, com cotovelos se empurrando, dividindo a metade da última garrafa de whisky, do que sentar-me no sofá e beber o que for, sem ninguém. O mau do homem é beber sozinho.

Na eterna ânsia de multiplicar, eu prefiro dividir. E na nossa mesa dividimos a bebida, a comida e a conta. No dia seguinte, a ressaca é em grupo, vendo TV e comparando os atributos das conquistas da noite anterior. E essa é uma das partes boas, quando não conseguimos lembrar de tudo que aconteceu e acabamos por incrementar a narração, por mentir, sem maldade, para que nossos amigos estejam sempre entretidos. Por mais que todos saibamos que é bem provável que o que o Leonardo falou sobre as gêmeas no banheiro seja mentira, rimos e ficamos espantados, duvidamos, mas só um pouco. E chega a nossa vez de contar a nossa estória. Uns detalhes a mais não fazem mal a ninguém. Isso é beber junto.

E não somente beber, mas viver. Se fôssemos sozinhos, quem faria coro nas arquibancadas? Pra quem contaríamos nossas “mentirinhas”? Quem sacanearíamos a cada atualização de status? Um homem de verdade entende que não é só. Sabe que um dia pode precisar de qualquer um. Até de um botafoguense.

E o homem que bebe só, independente e supremo, está sentado, folgado e confortável. Sem ter quem sacanear pelas derrotas do Vasco, sem ter quem “humilhar” pela “filhote de cruz-credo” que pegou na balada. O homem que bebe só não conta estórias, nem histórias, nem comenta nada. Não por não ter o que falar, mas por não ter quem ouvir. E a ressaca chega, e o que ele fez na noite anterior não interessa a ninguém. Quase tão solitário quanto um torcedor do Fluminense.

Por isso prefiro beber junto. Tomando cuidado pra um cotovelo não derrubar meu copo – Deus me livre que isso aconteça – rindo e atento. Bolando coisas pra contar e fazendo vaquinha pra pagar a conta.

Por André Filho

Pra ser ler ouvindo O Último Bar – Matanza

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Published in: on Julho 17, 2012 at 11:43 pm  Comments (2)  
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Confissão

Esperando pelo último suspiro
como um felino
que pulará
na cama enquanto estarei dormindo

Eu tenho muita tristeza
pela minha esposa
ela verá este
corpo
pálido
rígido
sacudirá uma vez
talvez
outra:

“Hank!”

Hank não
responderá.

Não é a morte certa que
me preocupa, mas é
deixar minha
esposa
com uma
pilha de
nada.

eu quero
que ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
ao seu lado

mesmo as discussões
mais inúteis
foram esplêndidas

e as difíceis
palavras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:

Eu
te
amo.

ALIMENTOS ENLATADOS S.A.

 Nunca mais você grudada no meu pau, natural como uma rês no gancho do açougueiro. Nunca mais duas lágrimas por uma trepada abrupta na parte traseira. Meu poder sobre você se dilui como os miolos de qualquer um na máquina de moer (meu quarto é escuro como a memória de um morto)

É duro para mim porque eu adoro todas as coisas que os filósofos odeiam e as empregadas temem, e você é uma empregada: mulher perfeita para comprar aspirina num terrível amanhecer de inverno e limpar até a última gota de vômito, certamente você vai apodrecer assim (ha, ha, ha). Ai, só dóis quando não rio.

Claro que lá fora as pessoas desaparecem sem deixar rastro mas ninguém pensa que as suas pegadas não levam a lugar nenhum porque são frias como a privada de um motel à meia-noite. Ninguém pensa em incluir meu nome entre as vítimas do massacre, ninguém pensa porque todo mundo é filósofo ou empregada, que desgraça!

Isto não está no Relatório Hite, não é o tipo de coisa em que as pessoas gostem de pensar nos hipódromos. É apenas uma pilhas cuecas sujas e não tem importância, a menos que você persiga no ar uma bala perdida, a menos que o tenham chutado para fora do último bar e você ainda queira pagar outra rodada.

— Efraim Medina Reyes – Pistoleiros / Putas e Dementes.

Postado do som de A Man Needs A Maid – Neil Young

Esta noite

“Seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui há 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.

Caro editor:
parece que as garotas já se
foram.

Entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção

e o senhor pode ficar com todos os poemas

os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.

Entendo o que o senhor me diz.

O senhor entende o que eu digo?

– Charles Bukowski

Pra falar de Amor

“Estou cansado
De fazer coisas inúteis
E dizer palavras fúteis
Procurando me entreter

Estou cansado
De ficar na esperança
De que alguma bonança
Vai enfim acontecer

Eu quero apenas
Não ter mais dilemas
E escrever poemas
Pra falar de amor…”

– Henry Florean

Postado ao som de Broken Boy Soldier – The Raconteurs

Published in: on Agosto 1, 2010 at 11:18 pm  Deixe um Comentário  
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Dois poemas terríveis no domingo sujo

1.
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

2.
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

– Paulo Leminski

Published in: on Maio 23, 2010 at 2:04 pm  Comments (1)  
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